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Por que os nazistas se chamavam "socialistas"?

Em entrevista ao jornal inglês The Guardian, em 1923, Adolf Hitler explicou por que eles usavam a palavra "socialista" no nome do partido (Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães).

The Guardian: Por que você se chama "nacional-socialista" se o programa do seu partido é a própria antítese do que geralmente se considera o socialismo?

Hitler: O socialismo é a ciência de se lidar com o bem comum. Comunismo não é socialismo. Marxismo não é socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. Eu vou retirar o socialismo dos socialistas. 

O socialismo é uma antiga instituição ariana, germânica. Nossos ancestrais alemães tinham terras em comum. Eles cultivavam a ideia de riqueza comum. O marxismo não tem o direito de se disfarçar como socialismo. O socialismo, ao contrário do marxismo, não repudia a propriedade privada. Ao contrário do marxismo, não envolve a negação da personalidade, e ao contrário do marxismo, é patriota. 

Nós poderíamos ter nos dado o nome de Partido Liberal. Nós escolhemos nos chamar Nacional-Socialistas. Não somos internacionalistas. Nosso socialismo é nacional. Nós exigimos o cumprimento das justas exigências das classes produtoras pelo estado sobre a base da solidariedade de raça. Para nós, estado e raça são um só. 


Violência contra nazistas funciona

Neste artigo o autor antifascista Hort Schöppner lança um olhar histórico e traz para o debate contemporâneo seu pensamento sobre o que pode ser mais efetivo contra a AfD e o PEGIDA. Sua contribuição é uma introdução ao debate.

A violência é sempre considerada má: seja ela aplicada contra a polícia, contra manifestantes ou até mesmo contra nazistas.

Sempre aprendemos o caminho da não-violência, aquele da resolução de conflitos e do  sentar-se em círculos para conversar. Mas por que os EUA mantêm o exército mais poderoso do mundo? Por que a polícia está sempre atualizando seu armamento? O que faz o exército alemão no Afeganistão? Quem financiou o Estado Islâmico na Síria?

O discurso da não-violência é hipócrita. É pura propaganda. Serve apenas para a paz interior. As relações sociais já são em si violentas. Ou é através de doações que os ricos ficam cada vez mais ricos?

O fato é: a violência funciona. Quer gostem dela ou não. E a violência funciona também contra nazistas. Talvez a única violência que funcione seja contra nazistas.

Tentemos algo como uma discussão com a direita. (Só para lembrar: uma discussão, segundo a Wikipedia, é uma conversa (ou diálogo) entre duas ou mais pessoas no qual um tema é investigado (discutido), no qual cada lado apresenta seus argumentos. Como tal ela é parte da comunicação humana.)

Tomemos dois exemplos disso:

1. Apresentação dos argumentos

Isso significa, em primeiro lugar, que um racista, islamofóbico ou nazista apresenta um argumento e, em segundo lugar,que ele (ou ela) ouve seu argumento (e entende!).

- Os refugiados devem ir embora.
- Por que?
- Porque eles não são daqui.
- Com certeza, por isso são chamados de refugiados. Por que devem ir embora?
- Porque eles não pertencem a este lugar. 
- Com certeza, por isso são refugiados, etc.

Ou então:

- Não podemos receber todo mundo.
- Por que? Nós somos ricos, temos espaço e há vagas de emprego.
- Eu não sou rico e não tenho emprego.
- Algum refugiado tomou algo de você?
- Não.
- O que isso tem a ver então com os refugiados?
- Não podemos receber todo mundo.

A conversa seria algo assim. Preconceitos não são argumentos. O ódio não precisa de nenhuma justificativa.

2. Comunicação humana (interpessoal)

Para isso são necessárias duas pessoas pelo menos, que se respeitam, falam uma com a outra e se ouvem.

Se você não é racista, islamofóbico ou nazista, se você não gosta dos discursos do PEGIDA ou da AfD, então você é automaticamente para eles um idiota, antifa, ingênuo, negro, manipulado pela imprensa, gay, governista ou tudo isso junto.

Pessoas cujos pensamentos estão impregnados de racismo, nacionalismo agressivo, hostilidade à democracia, intolerância, elitismo, etc, são, em essência, fascistas. Sua visão de mundo está fechada consigo mesma. Argumentos não podem penetrar através de seu muro de preconceitos e valorações.

Quem pensa assim se apega às suas hostilidades e ao seu "sistema de valores". Na essência trata-se de pessoas inseguras e medrosas. Insegurança e medo são a alma do pequeno-burguês, o suporte para a mentalidade provinciana, a psique do subordinado. Esta é a porta de entrada não para argumentos, mas sim para a violência. O fascismo não é nenhuma "pensamento", mas é mortal. E a dura verdade é: contra preconceitos e ódio não há argumentos.

O que diz a história?

Não há nenhum exemplo na história no qual um ditador ou fascista foi deposto sem violência. Aquele nazista gente boa é um potencial assassino. Logo, cada fascista incapaz de matar é, pelo menos para o seu objeto de ódio, um perigo. Isso soa estranho, mas infelizmente corresponde aos fatos. Para o meu livro "Antifa heisst Angriff" eu fiz inúmeras entrevistas e coletei diversos exemplos dos anos 1980, que foi quando nasceram os movimentos de militantes antifascistas. O quadro não deixa dúvidas: quanto mais antifas, menos nazistas.

Um exemplo: em outubro de 1983 haveria um jogo entre as seleções de futebol da Alemanha e da Turquia pelas eliminatórias da Eurocopa. Neonazistas e torcedores de direita se mobilizaram por todo o país em uma manifestação contra os estrangeiros e contra a esquerda. Era supostamente um "sinal para todo o povo alemão": "Kreuzberg vai pegar fogo". A atmosfera no país era "hostil a estrangeiros", para usar uma expressão comum daquela época. Helmut Kohl havia exigido em 1982 que, nos próximos quatro anos, o percentual de turcos fosse reduzido em 50%. De maneira semelhante afirmava Helmut Schmidt (SPD): "eu prefiro os turcos do outro lado da fronteira".

Antifascistas e autônomos se levantaram contra este consenso e se mobilizaram para ir a este jogo de futebol na Berlim Ocidental. Um sistema de comunicação com veículos guardas foi desenvolvido (não havia celulares na época) e pontos de encontro foram unificados. Grupos de ação aguardavam em casas para atacar os neonazistas que aparecessem. Paralelamente, a chegada dos neonazistas foi dificultada. Em Hamburgo foram queimados os ônibus da empresa Hansa-Rundfahrt. Ao mesmo tempo foram queimados três veículos da família Wulff, em Hamburgo, a qual até hoje se encontra em atividade em estruturas neonazistas. Um dia depois os militantes antifascistas desconectaram um sistema de sinais do sistema ferroviário alemão perto da fronteira da Alemanha Oriental Socialista a fim de parar os trens que os neonazistas utilizavam para se deslocar para Berlim Ocidental. As ações foram bem sucedidas. Nenhum nazista entrou na cidade. O "Führer" Michael Kühnen teve apenas uma conversa por telefone com um agrupamento de neonazistas em uma casa em Berlin-Wedding.

Por todo o país os militantes antifascistas se convenceram de que usar violência contra os nazistas funciona. Onde as antifas eram fortes os nazistas recuavam. O risco de suas ações crescia com cada antifascista ativo. É assim até hoje. As antifas daquela época, porém, tinham mais experiência. Elas 
executavam ataques às infraestruturas dos neonazistas, as quais são decisivas para desmobilizá-los. Nas entrevistas eles explicavam: "Então uma ação (incêndio) contra a Wehrsportgruppe Jürgens teve naturalmente certo efeito. Ela destruiu grande parte de sua infraestrutura. O grupo nazista já não existia mais naquela forma. (...) Também nos pequenos restaurantes se falava que poderia haver consequências se tolerassem encontros de nazistas.  (...) Também as ações contra a imprensa dos nazistas foram muito divertidas, além de eles não mais poderem imprimir suas merdas. Isso freou sua organização." E também: "... quando você, como um nazista, vem para o seu carro e ele está com os pneus vazios, então aos poucos isso dá nos nervos. E com isso, naturalmente, também um carro deles queimar às vezes, ou algo de sua logística. Isso claramente paralisava os nazistas. O fim para os nazistas de Müller em Main foi o incêndio de sua Walhalla. Pela primeira vez não houve mais comemoração do aniversário de Hitler, nenhum encontro nacional, nenhum festival de inverno ou verão. Pela primeira vez houve uma grande trégua. E algo fez isso acontecer."

Resta concluir que violência contra nazistas funciona. Infelizmente. Certamente não apenas a violência. Trata-se de um discurso social. Mas trata-se também de poder.

Que fazer?

Façamos um exercício de pensamento: o que aconteceria se, de repente, 1.000 antifas aparecessem em uma manifestação do PEGIDA? Tudo ficaria como antes? Que consequências isso teria? Iriam os destiladores de ódio pequeno-burgueses ainda fazerem grandes discursos? Iriam eles, diante do punho antifascista, continuarem sem rédeas contra as minorias? Ou iriam calar a boca, enfiar o rabo entre as pernas e rastejar de volta para casa?

Deve-se reconhecer que, sem violência, nada mudou contra o PEGIDA. Pelo contrário, a violência e o ódio dos nazistas levou a AfD a conquistar cadeiras no parlamento. Com isso os bandidos marrons praticamente conquistaram um braço parlamentar.

Mas naturalmente não é necessário sempre o uso da violência. Pelo menos não física. Há também outros métodos que podem barrar os nazistas. Os bloqueios do "Dresden livre de nazistas" funcionaram, por exemplo. Segundo a lei e a jurisprudência, bloqueios não são considerados completamente violentos. Pelo menos pode-se ver com isso que ações consequentes são vitoriosas.

A interpretação do que é violento também é muito ampla. Em Mainz, os trabalhadores de um teatro público cantaram em voz alta o "Ode à alegria", de Beethoven, contra a AfD. Resultado: ação da polícia contra todos os funcionários do teatro. Os policiais compreenderam que a manifestação da AfD estava sendo perturbada, e com isso estava sendo ferido seu direito de livre associação.

Vamos finalizar citando Bernd Langer, um histórico antifascista que também já nos anos 1980 estava ativo: "O fascismo é a forma mais elevada da violência. Você deve responder a isso de forma militante. Não há outra maneira. Logo, resistência pacífica contra o fascismo é - quando se considera a história do nacional-socialismo e da segunda guerra e além - um aburdo para mim."

O homem sabia das coisas. Veja a realidade. Infelizmente!

Hort Schöppner
Traduzido do alemão por O Marxista-Leninista

Camarada Stálin, é possível discutir com fascistas?

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Como lidar com fascistas


Jair Bolsonaro e Hitler


Projetinho de Hitler tropical

O dia em que a URSS saiu da Copa do Mundo em solidariedade ao povo chileno


Jogo de ida entre URSS e Chile, em Moscou
Em 21 de novembro de 1973 estava prevista a partida eliminatória para a copa do mundo entre as seleções de Chile e União Soviética. O golpe fascista de Pinochet ocorreu em 11 de setembro, alguns meses antes. As consequências imediatas foram terríveis: assassinatos, torturas, desaparições, etc.

No jogo de ida, no Estádio Lenin, em Moscou, o duelo entre as seleções terminou em 0x0. Mesmo tendo sido alguns dias depois do golpe, seus efeitos ainda não se sentiam com tanta força. Mas no dia 21 de novembro já se tinha notícias das decorrências do golpe: assassinatos, torturas, desaparições e outras formas de violência contra a militância de esquerda. O papel que desempenhou o Estádio do Chile no golpe tornava este lugar indigno para a disputa de uma partida de futebol. O governo fascista de Pinochet faria este estádio entrar para a história mas, desgraçadamente, não por causa do futebol.

As autoridades soviéticas emitiram um comunicado à FIFA no qual se anunciava que a URSS não jogaria uma partida num estádio que havia servido de campo de concentração. A URSS pediu que a partida fosse anulada. A FIFA desconsiderou as petições soviéticas, apesar de uma delegação internacional ter visitado o estádio e ter testemunhado os presos no campo. O comunicado soviético dizia o seguinte: "por considerações morais, os atletas soviéticos não podem neste momento jogar no estádio de Santiago, salpicado com o sangue dos patriotas chilenos... A União Soviética protesta e declara que nas atuais condições, quando a FIFA opera contra os ditames do senso comum e permite que os reacionários chilenos a levem pela mão, é obrigada a se negar a participar da partida eliminatória em solo chileno e resposabiliza por tal fato a administração da FIFA."

Jogo de volta entre Chile e URSS (ausente), em 1973
O dia da partida chegou. Apesar do veredito da Federação, favorável a que se disputasse a partida, a seleção da União Soviética não viajou para o Chile. A seleção chilena tinha que ganhar o jogo para se classificar para o Mundial. Seus jogadores entraram em campo e marcaram um gol em um rival inexistente.

O regime fascista de Pinochet fazia dessa forma um dos papeis mais ridículos de que se tem notícia na história do esporte. A seleção chilena não só traía um jogo limpo contra um rival inexistente, mas também traía o melhor do seu povo. Mas a União Soviética, por outro lado, dava uma mostra admirável de solidariedade e de amor ao povo chileno. E admirável não só no Chile. Seus exemplo esportivo teve eco em todo o mundo. O esporte soviético fechou as portas para que essa seleção participasse da Copa do Mundo em 1974, mas demonstrava que a qualidade humana do socialismo está muito acima dos resultados esportivos.

Imagens dos presos no Estádio no Chile



Entrevista de emprego para a IV Internacional

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Fonte: Espresso Stalinist

"Torturei uns trinta"


O ex-tenente Marcelo Paixão de Araújo: herdeiro
de uma das grandes fortunas mineiras

Marcelo Paixão de Araújo debruçou-se sobre uma mesa de vidro, na sala de seu amplo apartamento, em Belo Horizonte, pediu à empregada para trazer biscoitos, água mineral e café — e prestou a VEJA um histórico depoimento de quase duas horas. Com ele, tornou-se o primeiro agente da repressão a admitir em público que torturava presos políticos durante a ditadura militar. Hoje, passados trinta anos, sua vida é tranqüila. Herdeiro dos fundadores do sólido Banco Mercantil, Marcelo Paixão de Araújo formou-se em direito e trabalha como corretor de seguros, em Betim, a 30 quilômetros de Belo Horizonte, para onde vai dirigindo seu Toyota do ano. Casado, duas filhas, acaba de mudar-se para um apartamento de 300 metros quadrados, na região da Savassi, um dos bairros mais chiques da capital mineira. Apesar dos 15 quilos acima do peso ideal, ele maneja seu barco no lago de Furnas, onde tem uma casa para os fins de semana. De manhã, lê por uma hora, antes de sair para o trabalho. Em casa, tem uma biblioteca de 2.500 volumes, onde se podem encontrar desde clássicos da literatura brasileira até manuais de tortura. Ele gosta de livros de política e de História e, nos últimos tempos, tem-se dedicado à leitura de biografias. Leu A Lanterna na Popa, do ex-ministro Roberto Campos, e Chatô, o Rei do Brasil, do jornalista Fernando Morais.

"A tortura causa um desgaste muito grande. Nunca me neguei a torturar alguém, mas só fazia quando havia necessidade. Mas a brincadeirinha não tem a menor graça, viu?" (risos)

Em 1968, Marcelo Paixão de Araújo servia como tenente no 12º Regimento de Infantaria do Exército em Belo Horizonte, um dos três centros mais conhecidos de tortura da capital mineira durante a ditadura militar. Ali, permaneceu até 1971. "Fiquei porque achava que a única forma de consertar o país era por meio das Forças Armadas", diz. Ao deixar a caserna, foi trabalhar na empresa do pai, a Minas Brasil, braço de seguros do Banco Mercantil, onde ocupava o cargo de superintendente técnico. Raríssimas vezes usava terno e gravata. Preferia trabalhar de calça jeans. "Ele era diferente do pai e dos irmãos. Era um moleque, uma pessoa muito alegre, que vivia contando piada", diz uma ex-funcionária da empresa. "Descobri que eu não havia nascido para ser executivo", conta Marcelo. Ali, trabalhou seis anos, mas teve tantos problemas que saiu da empresa para o divã do analista. Fez sete anos de análise. Ele garante que não recorreu ao divã em função da passagem pelo porão e diz que vive em paz com seu passado. Na entrevista a VEJA, o ex-tenente alternou estados de humor, indo da descontração à rispidez em segundos. Aqui, ele conta como e por que torturou três dezenas de presos políticos, de 1968 a 1971:

O engenheiro Leovi Carísio, hoje com 52 anos, foi uma das vítimas de tortura do ex-tenente. Era militante do grupo Colina/VAR-Palmares, ficou mais de três anos preso e passou pelo pau-de-arara, "esticamento" e tomou choque. Ele explica: "Marcelo me obrigava a deitar de costas numa mesa. Aí, ele amarrava meus punhos e tornozelos aos pés da mesa e puxava de um lado ao outro até envergar meu tronco. Era horrível" Foto: Moreira Mariz  

Veja — Durante a ditadura, em depoimentos na Justiça Militar, 22 presos políticos acusam o senhor de tortura. É verdade?

Araújo — Quem lhe disse isso?

Veja — Vi nos processos na Justiça Militar. E, pela quantidade de presos que o citaram, o senhor é o agente da repressão que mais praticou torturas. É verdade?

Araújo — Sim. Todos os depoimentos de presos que me acusam de tortura são verdadeiros.

Veja — O senhor fez isso cumprindo ordens ou achava que deveria fazê-lo?

Araújo — Eu poderia alegar questões de consciência e não participar. Fiz porque achava que era necessário. É evidente que eu cumpria ordens. Mas aceitei as ordens. Não quero passar a idéia de que era um bitolado. Recebi ordens, diretrizes, mas eu estava pronto para aceitá-las e cumpri-las. Não pense que eu fui forçado ou envolvido. Nada disso. Se deixássemos VPR, Polop (organizações terroristas) ou o que fosse tomar o poder ou entregá-lo a alguém, quem se aproveitaria disso seriam os comunistas. Não queríamos que o Brasil virasse o Chile de Salvador Allende. Nessa época, eu tinha 21 anos, mas não era nenhum menino ingênuo (risos). O pau comia mesmo. Quem falar que não havia tortura é um idiota.

Ex-militante do PCB, três anos de cadeia, o hoje professor de História Ápio Costa Rosa, 57 anos, carrega marcas físicas da tortura. "Marcelo apagava cigarro no meu corpo, mas a pior coisa que ele fez foi me deitar no chão, colocar um cabo de vassoura no meu pescoço e subir em cima. Aí, quando eu ia respirar, ele derramava óleo no meu rosto. Estou pagando por isso tudo até hoje", diz

Veja — Como o senhor aprendeu a torturar?

Araújo — Vendo.

Veja — O que o senhor fazia?

Araújo — A primeira coisa era jogar o sujeito no meio de uma sala, tirar a roupa dele e começar a gritar para ele entregar o ponto (lugar marcado para encontros), os militantes do grupo. Era o primeiro estágio. Se ele resistisse, tinha um segundo estágio, que era, vamos dizer assim, mais porrada. Um dava tapa na cara. Outro, soco na boca do estômago. Um terceiro, soco no rim. Tudo para ver se ele falava. Se não falava, tinha dois caminhos. Dependia muito de quem aplicava a tortura. Eu gostava muito de aplicar a palmatória. É muito doloroso, mas faz o sujeito falar. Eu era muito bom na palmatória.

Veja — Como funciona a palmatória?

Araújo — Você manda o sujeito abrir a mão. O pior é que, de tão desmoralizado, ele abre. Aí se aplicam dez, quinze bolos na mão dele com força. A mão fica roxa. Ele fala. A etapa seguinte era o famoso telefone das Forças Armadas. Tinha gente que dizia que no telefone vinha inscrito US Army (indicando que era produto das Forças Armadas americanas). Balela. Era 100% brasileiro. O método foi muito usado nos Estados Unidos e na Inglaterra, mas o nosso equipamento era brasileiro.

Veja — E o que é o telefone?

Araújo — É uma corrente de baixa amperagem e alta voltagem.

Veja — De quanto?

Araújo — Posso pegar o manual para informar com certeza. Mas não tem perigo de fazer mal. Eu gostava muito de ligar nas duas pontas dos dedos. Pode ligar numa mão e na orelha, mas sempre do mesmo lado do corpo. O sujeito fica arrasado. O que não se pode fazer é deixar a corrente passar pelo coração. Aí mata.

Veja — Qual era o estágio seguinte quando o preso não falava?

Araújo — O último estágio em que cheguei foi o pau-de-arara com choque. Isso era para o queixo-duro, o cara que não abria nas etapas anteriores. Mas pau-de-arara é um negócio meio complicado. No Rio e em São Paulo gostavam mais de usar o pau-de-arara do que em Minas Gerais. Mas a gente usava, sim. O pau-de-arara não é vantagem. Primeiro, porque deixa marca. Depois, porque é trabalhoso. Tem de montar a estrutura. Em terceiro, é necessário tomar conta do indivíduo porque ele pode passar mal. Também tinha o afogamento. Você mete o preso dentro da água e tira. Quando ele vai respirar, coloca dentro de novo, e vai por aí afora. É como um caldo, como se faz na piscina. Era eficiente. Mas eu não gostava. Achava que o risco era muito alto. Afogamento não era a minha praia (risos). A geladeira, uma câmara fria em que se coloca o preso, não funcionava em Belo Horizonte. Era muito caro. O que tinha era o trivial caseiro. O menu mineiro.

Aos 53 anos, o engenheiro mecânico José Antônio Gonçalves Duarte, ex-militante do Partido Operário Comunista, POC, lembra com clareza seu suplício: "Esse pulha do Marcelo me torturou durante 98 dias. Era choque nos dedos, ouvidos e órgãos genitais, e afogamento. Há seis anos, eu o vi em São Paulo. Pensei: 'Como é fácil matar esse cara'. Minha mulher me puxou pelo braço e fomos embora". Fotos: Egberto Nogueira

Veja — O que mais tinha no menu mineiro?

Araújo — A dança da lata eu praticava muito.

Veja — Como era?

Araújo — Eu pegava duas latinhas de ervilha e abria. Depois, colocava o cara de pé, em cima.

Veja — Sangrava?

Araújo — Não. Ele falava antes disso (gargalhadas). Mas quem era mais leve agüentava mais tempo.

Veja — E quem não tinha o que dizer?

Araújo — Ia para a lata igual. Mas é muito fácil identificar quem tinha e quem não tinha o que falar.

Veja — Como?

Araújo — Militante é diferente. Jornalista é diferente de militar, que é diferente de empresário, que é diferente de militante. Ele se deixa trair por uma série de coisas. O linguajar, para começar, é diferente. Então, inocente só era torturado quando o agente era muito cru, sem conhecimento algum da práxis marxista, ou quando era um sádico. É muito fácil identificar uma pessoa que não é de esquerda. Vou dar um exemplo. Há algum tempo fui comprar dólares no Banespa, no câmbio turismo. Como até hoje tenho minha carteira militar, apresentei-a no lugar da identidade. O atendente viu a carteira, olhou para mim e perguntou:

— O senhor serviu no colégio militar?

— Tive uma época lá. Por quê? Você foi aluno lá?

— Não.

— Você foi soldado?

— Não.

— Escuta, eu te prendi?

— Não foi bem assim. Fui preso e o senhor foi o único que acreditou em mim. Apanhei com palmatória antes de o senhor chegar e me liberar.

— Sorte, hein? Já pensou se fosse o contrário? (risos).

Veja — O senhor já reencontrou alguma pessoa que torturou?

Araújo — Sim. Eventualmente, eu encontro ex-presos meus, inclusive os que apanharam. E o relacionamento não é muito ruim, não. Não é aquele negócio de dar beijinhos e abraços. Mas é um relacionamento de respeito. Há pouco tempo, aqui em Belo Horizonte, encontrei o Lamartine Sacramento Filho, que é professor em uma faculdade local. Segurei ele no ombro e disse: 'Você não me conhece, não?' Ele levou um susto. Aí eu disse: 'Você tá bom?' Ele disse que sim e não quis mais conversa. Mas também não passa batido, não (risos). Não deixo passar batido (sério).

Veja — Por quê?

Araújo — É o meu esquema. Não deixo passar batido. Não vai passar batido. Não passa batido. Vou lá, coloco a mão no ombro dele e digo: Não me esqueci de você, não. Você lembra de mim? Estamos aí. A vida continua.

Veja — Quantas pessoas o senhor já torturou?

Araújo — Não tenho idéia. Não sou igual a matador que faz talho na coronha do revólver para cada um que mata. Mas você quer um número aproximado?

Veja — Sim.

Araújo — Uns trinta.

Veja — O senhor matou alguém em sessões de tortura?

Araújo — Não. Já atirei, mas não matei.

Veja — Mas morreu gente onde o senhor servia.

Araújo — Pouca gente. O João Lucas Alves, que era um ex-sargento da FAB, foi um deles. Ele morreu na tortura.

Veja — O senhor participou?

Araújo — Não. Isso foi alguns dias antes de eu ser convocado. Depois que eu saí, se morreu alguém eu não sei.

Veja — O que é besteira e o que é verdade no que já se escreveu sobre tortura no Brasil?

Araújo — Há algumas pequenas inverdades. Mas a maioria dos fatos é correta. Há pouca besteira e muita verdade. As pessoas que participaram desse período até hoje não falaram abertamente. As altas autoridades do país foram as primeiras a tirar o seu da reta. Morri de rir ao ler o livro sobre o Geisel (refere-se ao livro que reúne as memórias do ex-presidente Ernesto Geisel, publicado no ano passado pela Fundação Getúlio Vargas). Segundo o depoimento de Geisel, ele não sabia de nada, mandava apurar tudo, era um inocente. É uma gracinha isso tudo. Todos os agentes do governo que escreveram sobre a época do regime militar foram muito comedidos. Farisaicos, até. Não sabiam de nada, eram santos, achavam a tortura um absurdo. Quem assinou o AI-5? Não fui eu. Ao suspender garantias constitucionais, permitiu-se tudo o que aconteceu nos porões. É claro que havia diversas pessoas envolvidas nisso. Mas eu não vou citar o nome de ninguém. Falo apenas de mim.

José Adão Pinto, que pertencia à Corrente Revolucionária, um braço mineiro da ALN, hoje é dono de uma livraria em São Paulo, tem 51 anos, casado, sem filhos: ele ficou estéril devido às intermináveis sessões de choque nos órgãos genitais e sofre de hemorróidas, pois lhe introduziam um cabo de vassoura no ânus. "Todo mundo me torturava, e não apenas o Marcelo, pois eu era o único negro"

Veja — Por que o senhor deixou o Exército?

Araújo — Estava numa encruzilhada. Ou eu ia para a academia ou tomava outro rumo na vida. Preferi terminar o meu curso de direito.

Veja — A tortura não é uma coisa desumana?

Araújo — (Silêncio)

Veja — Quem tortura age como um monstro?

Araújo — Monstro? (em tom indignado). Não. As pessoas que transitam em determinado meio tendem a se relacionar com seus pares. Então, militar andava com militar, policial andava com policial. Essas práticas eram normais entre nós. Quem eu achava que era monstro eram os sádicos. Eu mesmo afastei dois sargentos. Não queria sádicos trabalhando comigo.

Veja — O senhor tem medo de alguma vingança?

Araújo — Não. Andei armado de 1973 até 1980. Tinha um Smith & Wesson, calibre 38, de cinco tiros. Hoje não uso mais arma. Minha preocupação era a violência. Achava que tinha obrigação de reagir à violência. Aí descobri que ia armar bandido. Se for para andar armado, vou atirar pelo menos duas vezes por semana, não vou andar no volante, enfim, há uma série de precauções que precisam ser tomadas.

Veja — O senhor não tem medo de que aconteça algo para suas filhas?

Araújo — Uma das minhas meninas estuda direito na PUC. Há um ano, um débil mental falou para toda a sala que o pai dela tinha sido do Doi-Codi, que torturava gente, esse tipo de coisa.

Veja — Ela já sabia do seu passado?

Araújo — Sim. Quando uma tinha 13 anos e a outra 14, contei tudo. Foi na época em que saiu o livro Brasil: Nunca Mais. O meu nome está lá, na segunda página, para todo mundo ver (risos). É engraçado. Todo mundo tem o livro, mas pouquíssima gente leu.

Veja — Foi difícil essa conversa?

Araújo — Não foi muito difícil, não. Sou um bom pai. Minhas filhas foram bem criadas. Conhecem o pai que têm. Eu nunca escondi as coisas. Nunca disse a elas que fui um santinho. Disse a elas que não pensassem que eu não bati em alguém. Bati, sim. Elas ficaram um pouco chocadas e disseram: 'Pai, já sabemos, mas agora pára'. Não queriam detalhes. Eu segui a minha vida. Não adianta esconder esse tipo de coisa. A verdade uma hora vem à tona.

Veja — O senhor sofreu algum tipo de crise de consciência em função da tortura?

Araújo — Isso sempre deixa dramas na gente. É uma coisa pesada. Não é bom tratar um semelhante dessa forma. Você não quer aproveitar e comer um biscoitinho? (Ele come um biscoito.) Depois de deixar o Exército, tive uma grande crise de depressão. Fiz análise durante sete anos. Mas não foi por isso. Tinha problemas existenciais que não podem ser relacionados com a minha atividade no porão. Tinha problemas na empresa. Queria fazer coisas e o pessoal não queria. Foi problema profissional. Tinha um salário muito bom e ele piorou demais. E dinheiro é uma desgraça. É bom quando não faz falta.

Veja — O senhor se arrepende de ter torturado?

Araújo — Não me arrependo. Mas se você me perguntar se eu faria de novo, é outra conversa. É como você me perguntar se eu gostaria de voltar a ter 21 anos hoje. Com a experiência e o dinheiro que tenho atualmente, quero (risos). Mas não me arrependo de nada do que fiz.

Veja — O senhor faria tudo outra vez?

Araújo — Se achasse que não havia outro caminho para livrar o país do comunismo, sim. Mas, em princípio, não. Porque a tortura ou, eufemisticamente, o interrogatório por meios violentos, que não precisa necessariamente ser a porrada, causa um desgaste muito grande. Nunca me neguei a torturar alguém, porém só fazia quando havia necessidade. Mas a brincadeirinha não tem a menor graça, viu (risos).

Veja — Por que o senhor fazia isso, então?

Araújo — O índice de aproveitamento é de mais de 90%. A primeira vez que vi um interrogatório, como assistente, fiquei chocado. E olha que não tinha agressão. Foi só interrogatório policial duro.

Veja — O que o deixou chocado?

Araújo — A forma como o interrogado desmontou sem apanhar. Não adianta fazer interrogatório sem saber quem é o sujeito, de onde veio e o que faz. Era bobagem pegar um sujeito que foi flagrado com um folheto que se imaginava ser da ala vermelha do PCBR ou do PC do B. Isso não levava a lugar algum. Sabe o que funcionava demais? Um tapa com força na mesa. O cara levava um susto. E falava. Quando vi esse interrogatório, fiquei com pena do sujeito. Eram cinco pessoas em volta dele, gritando, ameaçando, chamando-o de mentiroso. Achava que o cara era inocente. Perdi a pena quando ele abriu o bico. Aí eu disse: "Ah, seu sem-vergonha, quer dizer que isso funciona". Com o tempo, vi outros interrogatórios mais duros. Em seguida, passei a atuar como agente.

Veja — Por que o senhor participou disso tudo?

Araújo — Eu achava que havia a necessidade de destruir as organizações de esquerda do país. Era uma convicção íntima. Nunca gostei do marxismo. Sempre fui visceralmente antimarxista. Isso é uma questão de formação. Meu pai sempre foi antimarxista. A coisa complicou quando descobri que o método (a tortura) era rápido. Bastava levar para o porão e pronto. Mas raríssimas vezes deixei de começar um interrogatório conversando com o indivíduo. Não vou dizer que no calor da prisão o cara não tenha ido direto para o porão. Já aconteceu, sim. Mas foram poucas vezes. Por que sabem o meu nome completo? Porque eu nunca escondi o meu nome. Tinha convicção quanto ao que estava fazendo. Eu não tinha codinome, como quase todo mundo. Portanto, não sou o maior torturador do país, mas sim um dos poucos que agiram de cara limpa.

Veja — Hoje, quase três décadas depois, o senhor não faz nenhuma ressalva ao passado?

Araújo — É preciso admitir que os resultados foram pífios. Atacamos muito a subversão e pouco a corrupção. A única coisa que o Geisel falou em seu livro que eu lhe dou razão é que não se pode fazer um movimento apenas contra. Tem de ser a favor de algo. Faltava isso no movimento. Houve outros equívocos. Para acabar com as lideranças de esquerda, acabaram com as de direita também. Cercearam o movimento estudantil, a política partidária. Foi uma pena. A gente podia ter aproveitado para fazer uma grande remodelação do país. Recentemente, lendo as memórias do Oswaldo Aranha, vi que ele diz o mesmo da Revolução de 1930. Tinha-se de aproveitar aquele período discricionário rapidamente, para impor com agilidade as reformas necessárias. Eu concordo inteiramente com ele.

Veja — Por que o senhor só resolveu dar esse depoimento agora?

Araújo — Porque ninguém me havia perguntado sobre isso antes.

Por Alexandre Oltramari
Fonte: Veja

Nós, os inimigos


O general Darke coordenou a confecção do documento

Matéria de Leandro Fortes na Carta Capital revela que exército brasileiro mantém prática de "infiltração de agentes de inteligência militar em organizações civis, notadamente movimentos sociais e sindicatos".

Em 24 de abril de 2009, sob as barbas do então presidente Lula e com o apoio do ministro da Defesa, Nelson Jobim, o Exército do Brasil produziu um documento impressionante. Classificado internamente como “reservado” e desconhecido, até agora, de Celso Amorim, que sucedeu a Jobim no ministério, o texto de 162 páginas recebeu o nome Manual de Campanha – Contra-Inteligência. Trata-se de um conjunto de normas e orientações técnicas que reúne, em um só universo, todas as paranoias de segurança herdadas da Guerra Fria e mantidas intocadas, décadas depois da queda do Muro de Berlim, do fim da ditadura e nove anos após a chegada do “temido” PT ao poder.

Há de tudo e um pouco mais no do-cumen-to elaborado pelo Estado Maior do Exército. A começar pelo fato de os generais ainda não terem se despido da prática de espionar a vida dos cidadãos comuns. O manual lista como potenciais inimigos (chamados no texto de “forças/elementos adversos”) praticamente toda a população não fardada do País e os estrangeiros. Citados de forma genérica estão movimentos sociais, ONGs e os demais órgãos governamentais, de “cunho ideológico ou não”. Só não explica como um órgão governamental pode estar incluído nesse conceito, embora seja fácil deduzir que a Secretaria de Direitos Humanos, empenhada em investigar os crimes da ditadura, seja um deles.

O manual foi liberado a setores da tropa por força de uma portaria assinada pelo então chefe do Estado Maior, general Darke Nunes de Figueiredo. Ex-chefe da segurança pessoal do ex-presidente Fernando Collor de Mello, Figueiredo é hoje assessor do senador do PTB de Alagoas. O texto é dividido em sete capítulos, com centenas de itens. O documento confirma oficialmente que o Exército desrespeita frontalmente a Constituição Brasileira. Em um trecho registrado como norma de conhecimento, descreve-se a política de infiltração de agentes de inteligência militar em organizações civis, notadamente movimentos sociais e sindicatos. O expediente, usado à farta na ditadura, está vetado a arapongas militares desde a Carta de 1988, embora nunca tenha, como se vê no documento, deixado de ser usado pela caserna.*

*Leia a íntegra da matéria na edição 668 de CartaCapital, nas bancas nesta sexta-feira 14


Mais uma do camarada Koba!


3 de outubro é a data comemorativa da reunificação das Alemanhas divididas no pós-guerra. Há exatos 21 anos houve essa junção, ou, como muitos dizem, a anexação da Alemanha Oriental pela Ocidental, depois da derrota da União Soviética e a derrocada dos regimes comunistas no leste europeu.

A reunificação, portanto, seria um processo ainda em curso, e que levará anos e gerações. De qualquer modo, 3 de outubro é um dia de festa na Alemanha e particularmente em Berlim, a cidade destruída pela guerra e depois fraturada pelo Muro, esse grande equívoco histórico do regime comunista.

Seja como for, há um dado interessante a ser lembrado. A primeira Alemanha a se constituir legalmente foi a Ocidental. A criação da Alemanha Oriental foi uma reposta a este gesto "separatista", ambas gestadas ainda na década de 40.

A primeira proposta séria de reunificação das Alemanhas partiu de quem? Do camarada Koba, aliás, Josef Stalin, imaginem! (Ossip Koba era o nome de guerra do camarada nos tempos de clandestinidade no Partido Comunista). Foi feita num documento chamado de "Nota de Março", em 1952, através do chanceler Andrei Gromyko. Stalin propunha às potências ocidentais a criação de uma só Alemanha, unificada e desmilitarizada.

Ao longo do ano a proposta acabou rejeitada, à luz da doutrina mantida, sobretudo, pelos Estados Unidos a partir de um documento identificado pela sigla NSCR 68 (National Security Council Report 68), de 1950 (ainda ao tempo de Truman como presidente), mas também à luz do medo atávico da França e da Inglaterra de uma Alemanha unida. Também colaborou para a rejeição a avaliação de que uma Alemanha unificada, desmilitarizada e neutra na Guerra Fria que já galopava pelo mundo acabaria sendo inevitavelmente atraída para a órbita soviética.

A proposta de Stalin colocou a política norte-americana diante de um dilema. A primeira face do dilema era a de que ele poderia estar fazendo uma mera jogada para a platéia mundial, e assim encurralar os Estados Unidos num canto do ringue, além de caracteriza-los como "inimigos eternos" da unidade alemã. Stalin propunha uma Alemanha, livre, com liberdade de imprensa, pluripartidarismo (!), eleições livres, liberdade religiosa, etc.

Também propunha que um ano depois da adoção da proposta as potências vencedoras da Segunda Guerra (o Brasil também foi um vencedor da Segunda Guerra, mas não era uma potência...) deveriam retirar seus exércitos do território alemão. Além disso, a Alemanha deveria ter acesso irrestrito ao mercado internacional – e não deveria ter alianças militares.

A segunda face, porém, foi trazida à baila por James Warburg, banqueiro norte-americano nascido na Alemanha, num depoimento perante o senado em Washington, ainda no mês de março, logo após Gromyko ter entregado a famosa nota aos representantes das potências ocidentais. Warburg, que fora conselheiro de Roosevelt (embora se afastasse dele por causa de certas medidas do New Deal...) e era membro do Conselho de Relações Exteriores, afirmou que uma das dúvidas do governo norte-americano era a de que Stalin poderia muito bem não estar blefando ao fazer a proposta.

Isso poderia trazer muito mais incômodo para a posição norte-americana que, na época, à luz do NSCR 68, privilegiava a consolidação das posições militares ao invés da ação diplomática. A principal objeção norte-americana à proposta era a de que uma Alemanha livre deveria ter a liberdade de integrar a OTAN, cuja criação datava de 1949, e fora acelerada a partir de 1950 com a deflagração da Guerra da Coréia.

A proposta também não teve acolhida na Alemanha Ocidental (criada em maio de 1949, meses antes da criação da Alemanha Oriental, que foi uma retaliação), pois a orientação do então chanceler Konrad Adenauer (democrata-cristão) era privilegiar a integração daquela ao Ocidente. Durante 1950 houve uma troca de mensagens cada vez mais irritadas entre a União Soviética e as potências ocidentais, até que finalmente a proposta foi considerada definitivamente fora do jogo.

Noam Chomsky é citado como um dos que considera que Stalin provavelmente não estava blefando com sua proposta. É muito possível que não estivesse mesmo, pois um estado-tampão (como ficou sendo, mal comparando, o Uruguai entre o Brasil e a Argentina no século XIX...) neutro entre a órbita soviética e o ocidente seria melhor do que a permanente linha de confronto entre as duas Alemanhas. Stalin não deixava de ter razão, como muito bem demonstrou a crise de 1961, quando quase eclodiu um confronto armado entre blindados soviéticos e norte-americanos no ponto conhecido como "Checkpoint Charlie", cujas conseqüências seriam terríveis em escala mundial.

Até hoje se debate se a adoção da proposta de Stalin teria sido melhor ou não. Vá se saber! Mais uma do camarada Koba!

Flávio Aguiar



O moderno reacionário é a porta de entrada do velho fascismo

Se você não entendeu a piada de Rafinha Bastos afirmando que para a mulher feia o estupro é uma benção, tranquilize-se. O teólogo Luiz Felipe Pondé acaba de fornecer uma explicação recheada da mais alta filosofia: a mulher enruga como um pêssego seco se não encontra a tempo um homem capaz de tratá-la como objeto.

Por Marcelo Semer*

Se você também considerou a deputada-missionária-ex-atriz Myriam Rios obscurantista ao ouvi-la falando sobre homossexualidade e pedofilia, o que dizer do ilustrado João Pereira Coutinho que comparou a amamentação em público com o ato de defecar ou masturbar-se à vista de todos?

Nas bancas ou nas melhores casas do ramo, neo-machistas intelectuais estão aí para nos advertir que os direitos humanos nada mais são do que o triunfo do obtuso, a igualdade é uma balela do enfadonho politicamente correto e não há futuro digno fora da liberdade de cada um de expressar a seu modo, o mais profundo desrespeito ao próximo.

O moderno reacionário é um subproduto do alargamento da cidadania. São quixotes sem utopias, denunciando a patrulha de quem se atreve a contestar seu suposto direito líquido e certo a propagar um bom e velho preconceito.

Pondé já havia expressado a angústia de uma classe média ressentida, ao afirmar o asco pelos aeroportos-rodoviárias, repletos de gente diferenciada. Também dera razão em suas tortuosas linhas à xenofobia europeia.

De modo que dizer que as mulheres - e só elas - precisam se sentir objeto, para não se tornarem lésbicas, nem devia chamar nossa atenção.

Mas chamar a atenção é justamente o mote dos ditos vanguardistas. Detonar o humanismo sem meias palavras e mandar a conta do atraso para aqueles que ainda não os alcançaram.

No eufemismo de seus entusiasmados editores, enfim, tirar o leitor da zona de conforto.

É o que de melhor fazem, por exemplo, os colunistas do insulto, que recheiam as páginas das revistas de variedades, com competições semanais de ofensas.

O presidente é uma anta, passeatas são antros de maconheiros e vagabundos, criminosos defensores de ideais esquerdizóides anacrônicos e outros tantos palavrões de ordem que fariam os retrógrados do Tea Party corarem de constrangimento.

Não é à toa que uma obscura figura política como Jair Bolsonaro foi trazida agora de volta à tona, estimulando racismo e homofobia como direitos naturais da tradicional família brasileira.

E na mesma toada, políticos de conhecida reputação republicana sucumbiram à instrumentalização do debate religioso, mandando às favas o estado laico e abrindo a caixa de Pandora da intolerância, que vem se espalhando como um rastilho de pólvora. A Idade Média, revisitada, agradece.

Com a agressividade típica de quem é dono da liberdade absoluta, e o descompromisso com valores éticos que consagra o "intelectual sem amarras", o cântico dos novos conservadores pode parecer sedutor.

Um bad-boy destemido, um lacerdista animador de polêmicas, um livre-destruidor do senso comum.

Nós já sabemos onde isto vai dar.

O rebaixamento do debate, a política virulenta que se espelha no aniquilamento do outro, a banalização da violência e a criação de párias expelidos da tutela da dignidade humana.

O reacionário moderno é apenas o ovo da serpente de um fascismo pra lá de ultrapassado.


*Marcelo Semer é Juiz de Direito em São Paulo. Foi presidente da Associação Juízes para a Democracia. Coordenador de "Direitos Humanos: essência do Direito do Trabalho" (LTr) e autor de "Crime Impossível" (Malheiros) e do romance "Certas Canções" (7 Letras). Responsável pelo Blog Sem Juízo.

Fonte: Vermelho

"Luta armada foi correta"

Último comandante militar da ALN defende execução de Hennig Boilesen, exorciza pecados dos dominicanos, não se arrepende de justiçamento de Marcio Leite Toledo, conta que Goiás fazia parte do mapa da guerrilha e avalia que existia possibilidade de derrota dos militares

Nome: Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz, de 60 anos. Codinome: Clemente. Último comandante militar da Ação Libertadora Nacional (ALN), organização guerrilheira de tendência comunista que empreendeu luta contra a ditadura militar no Brasil, ele afirma que Goiás fazia parte do mapa da revolução brasileira nos anos 60 e 70. A estratégia era deflagrar a guerrilha rural. Com inspiração em Régis Debray, o francês capturado nas selvas da Bolívia ao lado de Che Guevara, em 1967. Clemente retira o peso das costas dos dominicanos pela queda de Carlos Marighella, morto em 4 de novembro de 1969, em São Paulo (SP). Companheiro de armas, o ex-guerrilheiro relata os últimos momentos do goiano Paulo de Tarso Celestino, supostamente morto na Casa de Petrópolis. Mais: explica que não se arrepende do justiçamento de Marcio Leite Toledo, defende a execução de Henning Boilesen e confidencia que mais nomes ligados à repressão integravam a lista de executáveis da organização. Para Clemente, a possibilidade de derrota armada dos militares que deram o golpe de Estado de 1964 no Brasil não era um delírio à esquerda dos jovens da esquerda revolucionária: "a luta armada foi correta e havia possibilidade de vitória".

100 anos do nascimento de Carlos Marighella: ele foi herói ou vilão?

Herói do povo brasileiro. Como por aqui demoramos a reconhecer nossos heróis, Marighella ainda não aparece nos livros de História do Brasil com essa estatura. Zumbi demorou quantos séculos para ser reconhecido? Até quando pensamos, porque fomos ensinados, que a independência do Brasil tinha sido alcançada pelas mãos de Pedro I e não conquistada pelas lutas de nosso povo? Esta é uma de nossas lutas hoje, atualizar nosso ensino. Precisamos ensinar às nossas crianças que houve um golpe de Estado em 1964 e os generais foram ditadores. Quem, como Carlos Marighella, reagiu de armas na mão, lutou pela democracia. Foram resistentes da liberdade.

A queda de Carlos Marighella pode ser debitada única e exclusivamente na conta dos dominicanos, como aponta Jacob Gorender?

As quedas de Marighella e de grande parte do GTA (Grupo Tático Armado) de São Paulo começaram quando nos desviamos de nossa linha inicial, que era de preparar e lançar a guerrilha rural, criando condições para uma luta de longo prazo, e passamos a acreditar que teríamos como desestabilizar o regime com ações armadas de grande repercussão nas cidades. Demos um papel à propaganda armada imediata que ela não tinha antes. Pensamos que estávamos mais fortes do que era verdade, e a ditadura também. A repressão veio com toda violência, milhões foram gastos para nos destruir, arrancaram informações de nossa estrutura através da tortura, e chegaram a Marighella. Isso não tira a responsabilidade histórica dos dois dominicanos que abriram (entregaram) o ponto (encontro) com nosso líder e chegaram a dar a senha por telefone. O Estado ditatorial cometeu o crime de torturar dois brasileiros e forçá-los a trair a confiança de Carlos Marighella e de seus companheiros de armas.

Quem matou Joaquim Câmara Ferreira?

José da Silva Tavares, militante da ALN, entregou o Velho (Joaquim Câmara Ferreira) ao delegado Sérgio Paranhos Fleury. O famigerado e sua equipe prenderam nosso líder, torturaram e assassinaram na madrugada de 23 para 24 de outubro de 1970.

A adoção da estratégia de luta armada não teria sido equivocada?

Não. Em primeiro lugar havia uma necessidade de responder a violência da direita que rasgou a Constituição de 1946 e deu o golpe de Estado. Uma nação soberana e justa se constrói também através das lutas de seu povo. Quando uma parte da sociedade apela para a violência, é bom que aqueles que defendem a democracia e a liberdade respondam com as mesmas armas. Isso vai construindo uma consciência a longo prazo, mesmo se essa luta não conseguir todos os seus objetivos.

Existia a possibilidade de vitória da guerrilha contra a ditadura civil e militar?

Havia, e por isso a reação da direita e do imperialismo norte-americano foi tão violenta e investiram tanto dinheiro no aparelhamento e treinamento de suas forças repressivas.

Onde estariam enterrados os restos mortais de Paulo de Tarso Celestino e Heleni Guariba?

Paulo e Heleni foram traídos pelo Cabo Anselmo e não temos nenhuma informação sobre seus restos mortais, como não sabemos os detalhes de seu desaparecimento. São as informações que queremos quando defendemos a Comissão Nacional da Verdade. O país precisa saber o que aconteceu com os companheiros desaparecidos e suas famílias precisam dos restos mortais para homenagear seus entes queridos. Paulo de Tarso foi um dos companheiros mais próximos. Conheci-o quando voltou de Cuba e nossa ligação foi imediata. Compartilhamos nossas experiências e participamos da Coordenação Nacional montada por Joaquim Câmara Ferreira em 1970. Estivemos juntos na véspera de sua queda. Foi uma das perdas irrecuperáveis da ALN.

Não teria sido um erro o justiçamento de Marcio Leite Toledo?

Uma guerra pressupõe medidas duras e às vezes irreversíveis. A organização vinha sendo atingida duramente e tomamos medidas de defesa. Preferia que não tivéssemos precisado chegar a esse ponto, mas tenho certeza que os danos seriam maiores se houvéssemos hesitado. No nível pessoal, foi uma ação que deixou marcas profundas que não devem ser confundidas com arrependimento. São marcas de guerra que os combatentes carregam pelo resto de suas vidas.

A execução de Henning Boilesen foi uma ação correta?

O justiçamento de Boilesen foi justo, correto e necessário.

A ALN tinha planos de executar mais alguém?

Sim. Alguns estavam no mesmo esquema de Boilesen, o financiamento do sistema repressivo.

Qual proposta concreta lhe fez o cubano Arnaldo Ochoa?

Voltar ao Brasil partindo de Cuba com 100 combatentes cubanos comandados por mim e por ele. Entraríamos em território nacional pelo Rio Amazonas e nos instalaríamos no Centro-Norte do país. Recusei por várias razões: era o ano de 1973 e a ALN já estava quase dizimada; havíamos perdido a maioria dos contatos no campo; restavam poucos combatentes experientes. Porém a mais importante das razões era sermos uma organização de libertação nacional. Isso era um princípio e não negociamos princípios.

Existia alguma possibilidade de viabilidade dessa proposta?

Dela se concretizar, sim. Estivemos, eu e Ochoa, várias vezes no comando do Exército de Havana e ele me mostrou todo o esquema. Desde a organização até o desembarque em terra brasileira.

Goiás fazia parte do mapa da revolução da ALN? Por quê?

A guerrilha rural seria lançada em algum lugar entre o noroeste de Goiás, do Pará, do Maranhão e uma parte do Amazonas. Eram áreas boas para a guerra de guerrilha do ponto de vista geográfico, vegetação, e também devido aos conflitos agrários que nos fortaleceriam e forjariam quadros.

O sr. tem projeto de novo livro? Qual tema?

Tenho meu terceiro livro na gaveta e vou lançá-lo no ano que vem. Conta meu exílio em Paris, minha volta ao Brasil, e ainda histórias da luta armada.

Há projeto de lançamento de CD?

Tenho o projeto de juntar meus alunos de música e gravar um CD com composições minhas. Depois de lançar o livro e terminar dois projetos de cinema, me ocupo disso.

Documentário ou filme?

A Isa Albuquerque, realizadora do Rio de Janeiro, está filmando o documentário "Codinome Clemente" e um longa de ficção com histórias do "Viagem à Luta Armada" e de meu terceiro livro.

O que o sr. está lendo?

"La Supplication — Tchernobyl, Cronique du Monde Après l'Apocalypse" (1997), da bielorrussa Svetlana Alexievitch, que conta o que se passou depois da explosão da usina atômica soviética. Esse livro ainda é proibido na Bielorrussia, pois não esconde o terror daqueles momentos.

Fundação Lauro Campos - [Renato Dias]
Publicado originalmente no Jornal Opção


Coronel colombiano admite trama de assassinatos de falsos guerrilheiros

Sua unidade matou 57 civis em troca de benefícios oriundos de "baixas em combate" da guerrilha.

O coronel do exército colombiano Luis Fernando Broja Giraldo admitiu que sua unidade matou de forma premeditada 57 pessoas, vestiu seus corpos sem vida com uniformes de guerrilheiros e posteriormente solicitou os benefícios e permissões especiais relacionadas às "baixas em combate" com a guerrilha. A confissão lhe rendeu uma redução de sua pena de 42 para 21 anos.

O caso confessado pelo coronel, ex-comandante da Fuerza de Tarea Conjunta de Sucre (norte), ocorreu em 1º de novembro de 2007, quando tropas do destacamento a que pertencia deram parte da morte de dois supostos rebeldes em um enfrentamento na pequena localidade de El Pantano. Na investigação judicial, as famílias de dois jovens declararam que eles haviam sido contatados para trabalhar em tarefas agrícolas. Giraldo confessou agora que se tratou de "homicídios premeditados" e apontou a identidade dos oficiais, suboficiais e soldados que participaram de outras ações similares investigadas por fiscais de Direitos Humanos e que podem chegar a cinqüenta.

Desde meados de 2008 surgiram denúncias na Colômbia de muitos casos de desaparecidos ou de baixas em combate que posteriormente foram estabelecidos como assassinatos ou "falsos positivos" [camponeses assassinados que são passados por guerrilheiros - NT]. Desde este ano foram denunciados em torno de 2.000 casos dos quais estão envolvidos 1.487 militares, tendo quase uma centena destes já sentenciados a penas de prisão.

Fonte: PCEML, tradução de Glauber Ataide para o Diário Liberdade.

Paramilitares decapitam jovem e jogam futebol com sua cabeça

Talvez o maior problema dos noticiários sobre as FARC-EP é que eles nunca contextualizam o conflito existente na Colômbia, o qual se polariza entre os grandes latifundiários ricos e seus grupos paramilitares, de um lado, e os camponeses pobres e as FARC-EP, do outro. Um pouco mais de bom senso poderia exigir dos monopólios burgueses de comunicação que se falasse contra quem as FARC-EP lutam, pois se há um conflito, então é claro que há mais de uma parte beligerante.


O governo da Colômbia não tem apenas o seu exército como braço armado da burguesia. Ele conta também com organizações fascistas paramilitares responsáveis por inúmeros massacres de civis, comprovados por inúmeras entidades internacionais. Essas entidades também apontam em gráficos que entre 90% e 95% das violações dos direitos humanos na Colômbia são perpetrados pelo exército e\ou pelos grupos fascistas paramilitares.

Um exemplo do nível de bestialidade e atrocidade a que chegam esses grupos fascistas é relatado no livro "Revolutionary social change in Colombia - The origin and direction of the FARC-EP", do sociológo canadense e professor da Universidade de Brunswick, James J. Brittain.

Na página 134 da referida obra, Brittain conta como a organização paramilitar fascista AUC (Autodefensas Unidas de Colombia) decapitou um jovem de 17 anos, Marino López, após ter arrancado seus testículos e suas pernas e

"...depois da decapitação, os paramilitares, juntamente com membros do exército, usaram a cabeça de López como bola durante uma partida de futebol em frente à vila de Bijao del Cacarica, no município de Ríosucio, em Chocó (Pérez, 2003). Ao final da partida, os grupos pegaram o crânio sem vida, decepado e todo fraturado, e o fincaram em um poste como ameaça aos demais residentes (Ramírez, 2005: 50)."

E citando outro autor, detalha:

"Assim que os times estavam em campo, o juiz soprou o apito. Cada time tomou suas posições no campo. Então um gandula trouxe um saco grande ao centro do campo, esvaziando seu conteúdo em um ponto equidistante dos dois atacantes que dariam o chute inicial da partida. O público gritou horrorizado. A bola de futebol era a cabeça de Marino Lopez... Por vários minutos, o único som que se podia ouvir era o estalido dos pés dos jogadores sobre o crânio destruído. No sol opressivo daquela interminável manhã, o time paramilitar passou pela defesa de seu adversário e fez dois gols. Depois do segundo gol seu capitão anunciou que a bola não mais servia, e então o jogo teve que ser encerrado. Os jogadores do time do exército tinham que acompanhar. Eles não gostaram de perder, mas o jogo havia sido limpo. Seu atacante, que quase marcou dois gols, se desculpou aos seus companheiros. 'A bola estava horrível', ele disse. 'Espero que da próxima vez ela seja inflada apropriadamente antes do jogo.'" (Garavito, 2004)

Próximo a um conto de horror, casos como este, que não são isolados, são reveladores dos inimigos contra os quais as FARC-EP lutam, e dos quais os camponeses pobres, completamente desamparados pelo estado colombiano, são protegidos.


Papel de parede - Mamayev Kurgan, ou o Memorial de Stalingrado

O Mamayev Kurgan é um grande complexo memorial à Batalha de Stalingrado, construído entre 1959 e 1967 na cidade de Stalingrado (hoje Volvogrado). Considerada a mais sangrenta batalha da história humana, a Batalha de Stalingrado foi definitiva para a vitória soviética sobre os nazistas na II Guerra Mundial.

A estátua na foto se chama "A pátria mãe está chamando", e na época de sua instalação era a maior escultura do mundo.

Neste monumento está enterrado, entre outros, Vasily Zaytsev, o legendário franco atirador soviético que matou 242 nazistas entre outubro de 1942 e janeiro de 1943, e que é protagonizado por Jude Law no filme Círculo de fogo.

Papel de parede no tamanho 1500 x 998. Clique na imagem para ampliar.

"A revolução dos bichos", de George Orwell, rejeitada por T. S. Eliot

Matéria publicada pelo jornal The Telegraph revela que T. S. Eliot, considerado por alguns como o maior poeta de língua inglesa do século XX, recusou publicar o livro "A revolução dos bichos", de George Orwell, devido ao seu conteúdo "trotskista". Em cartas só agora disponibilizadas por sua viúva, ele teria afirmado que o argumento de Orwell (que tentava fazer uma caricatura do regime "stalinista") não era "convincente". A obra foi rejeitada por 4 editoras antes de ser publicada.

Segundo o jornal, uma das prováveis razões desta recusa é que naquele período, em 1944, a URSS estava derrotando os nazistas na II Guerra Mundial, e o prestígio dos soviéticos e de Stalin em todo o mundo era muito alto. O poeta afirma a Orwell em uma das cartas: "Não estamos convencidos de que este é o ponto de vista correto do qual criticar a situação política neste momento."

E completa: "Além do mais, os seus porcos são muito mais inteligentes que todos os outros animais, e portanto são os mais qualificados para governar a fazenda - na verdade não poderia haver uma fazenda sem eles: então o que era realmente necessário (alguém poderia argumentar) não seria mais comunismo, mas sim mais porcos como eles."

Um detalhe interessante que este episódio nos revela é a própria natureza do trotskismo: enquanto os soviéticos estavam salvando o mundo numa luta encarniçada contra o nazismo, eles estavam panfletando contra o governo da URSS, num esquerdismo infantil e irresponsável.

Matéria completa em: The Telegraph

URSS venceria a guerra sozinha

Nesta ótima entrevista concedida ao canal russo RT, o insuspeito escritor inglês Geoffrey Roberts, que se denomina "anti-Stalin", afirma que a URSS poderia ter vencido a II Guerra Mundial sozinha, sem ajuda dos aliados. Para nós, comunistas, isso não é nenhuma novidade. Sabemos que os aliados adiaram o quanto puderam qualquer auxílio aos soviéticos, esperando que a URSS fosse derrotada pelos nazistas para, assim, acabar de vez com o socialismo, que tanto os amedrontava. No entanto, para o grande público essa verdade ainda não chegou. Geoffrey critica, inclusive, a ignorância histórica generalizada dos americanos ao pensarem que os EUA venceram a II Guerra Mundial.

Geoffrey afirma que, sem a liderança de Stalin, a URSS poderia até ter perdido a guerra. Stalin, para ele, é a figura mais importante da primeira metade do século XX, cujo principal papel na II Guerra foi manter a unidade e a coesão de seus liderados. Isso foi possível pois Stalin inspirava confiança entre a população soviética em geral e era, ele próprio, um símbolo de todo um país unido. Na opinião de Geoffrey, toda a guerra gira em torno de suas habilidades de coordenação. Stalin é o grande herói não apenas da URSS, mas sim de todos os povos aliados.

E afirma: a URSS poderia ter vencido a guerra sozinha. Isso custaria mais vidas e levaria um tempo maior, mas poderia ter vencido sozinha. Enquanto a historiografia burguesa exalta o papel do "Dia D" como o belo dia em que os aliados se uniram para derrotar Hitler, sabemos muito bem que esse "Dia D" só aconteceu porque os aliados perceberam que a URSS tinha condições de derrotar Hitler sozinha e que o socialismo não seria derrotado ali.

Os números não nos deixam mentir: enquanto a Inglaterra perdeu em torno de 400 mil pessoas, a URSS perdeu 27 milhões de vidas. São números impressionantes, cuja omissão pela imprensa burguesa deve ser considerada um crime.

A entrevista está em inglês.



Fonte: Red Ant Liberation Army

As razões do golpe de 64

Por Emir Sader


As visões descritivas dos grandes acontecimentos históricos tendem a reduzi-los a contingências – a Primeira Guerra, a um episodio menor – ou a idiossincrasias – a personalidade de Hitler. No caso do golpe no Brasil, a imprensa golpista da época se centrava nos supostos “abusos” do governo Jango, que teriam levado à intervenção dos militares para “salvar a democracia” – lugar comum nos editoriais da época.

O movimento que desembocou no golpe de 1964 na realidade vem de longe. Podemos remontá-lo ao começo da Guerra Fria, no fim da Segunda Guerra e no começo do segundo pós-guerra, quando os EUA reciclavam sua definição de inimigos do bloco derrotado na guerra, para a URSS. Não seria possível explicar a brutalidade das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, sem levar em conta a nova atitude norteamericana de mostrar para a URSS sua superioridade nuclear, que iria definir o começo do novo período. De capa da revista Times há poucos anos antes, como herói da luta pela democracia, Stalin se tornava a encarnação do mal que haveria que evitar: o “espectro do comunismo”.

Foi nesse momento que os EUA elaboraram a Doutrina da Segurança Nacional, que propunha que os Estados se transformassem em quarteis generais na luta contra a “subversão” e o “comunismo”. Todo tipo de conflito, de divergência, de expressão de descontentamento social seria classificado como “subversão”, expressão de interesses estrangeiros e deveria ser extirpado. A instalação de ditaduras militares, que blindassem os Estados, seria o objetivo ideal.

Da geração de militares brasileiros que foi à guerra da Itália, Humberto Castello Branco e Golbery do Couto e Silva, estreitaram ali laços com as tropas nortemamericanas e, na volta para o Brasil, fundaram a Escola Superior de Guerra, que passou a ser o lugar estratégico de formulação, difusão e formação de pessoal das FFAA baseado na Doutrina de Segurança Nacional.

Os anos 50 foram anos de ensaios de golpe, contra Getúlio e contra JK, depois na renúncia do Jânio. Enquanto isso o Brasil crescia, distribuía renda, afirmava uma politica internacional própria. Os investimentos norteamericanos foram voltando com força – depois do longo interregno desde a crise de 1929-, até que, com a chegada da indústria automobilística, deslocaram para si o eixo da economia e condicionaram fortemente o consumo de luxo. Mas ao mesmo tempo o mercado interno se expandia na direção do consumo de bens de consumo popular nas grandes cidades e também no campo, onde se estendia o processo de sindicalização rural, pela primeira vez.

As duas dinâmicas se chocavam: a da democratização do consumo e a do consumo de luxo junto à exportação. A ditadura resolveu o conflito a favor desta. Além da brutal repressão que desatou contra tudo o que significasse democracia, desde o começo o regime militar teve um caráter de classe muito definido: interveio em todos os sindicatos, perseguiu a seus lideres e determinou um arrocho salarial, o que significou uma situação extraordinariamente favorável à superexploração dos trabalhadores e à acumulação favorável ao grande capital nacional e estrangeiro.

Ao contrario do que alguns pensavam, a ditadura não significou o retrocesso da expansão economia e da industrialização no Brasil. O fim da democracia e a imposição da ditadura foram funcionais ao capitalismo. Brecaram as demandas populares mediante o arrocho, bloquearam as demandas salariais pela intervenção e repressão aos movimentos populares, enquanto abria a economia ao capital estrangeiro, liberava o envio de royalties ao exterior e favorecia de todas as maneiras a concentração em favor das grandes empresas nacionais e estrangeiras.

O chamado “milagre” tinha um santo: a ditadura, a repressão, os golpes ao movimento popular e à democracia. Foi uma ditadura articulada com os planos da guerra fria dos EUA e com o modelo de acumulação do grande capital – que se desenvolveu em base à concentração no consumo de luxo, na superexploração dos trabalhadores e na exportação. Avançou o Brasil desigual, injusto, de concentração de renda, de exclusão social, de prepotência, de terror, de poder do capital, dos latifundiários, dos donos da mídia privada. O Brasil que recentemente começamos a superar, daí a oposição dos herdeiros da ditadura.