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Entrevista: como era a vida na Alemanha Socialista? Um operário nos revela

Como era a vida na Alemanha Socialista? Ninguém melhor para nos contar do que um comunista que realmente lá nasceu e viveu, e que ainda hoje luta pelo socialismo. Entrevistamos Olaf, nascido e educado na República Democrática Alemã (RDA, ou Alemanha Socialista), e ainda hoje um operário comunista. Crítico do curso revisionista tomado pela RDA a partir de 1956, Olaf acredita que apenas o socialismo pode livrar a humanidade da barbárie, mas ressalta: este socialismo teria características diferentes do sistema praticado na RDA.

Você nasceu na DDR (RDA)? Em qual cidade, e quantos anos viveu lá?


Eu nasci em 1968, nas proximidades de Berlim, mas cresci em Weimar e região, na Turíngia. Passei minha infância e juventude ali com minha família. Obtive minha formação profissional como mecânico junto às atividades políticas legais (obrigatórias) do regime (e em parte também ilegalmente: pichações políticas). Eu vivi na DDR até o final dos meus 20 anos de idade.


Como foi sua infância na DDR?


Eu frequentei a clássica escola superior politécnica. Praticava esportes em meu tempo livre (futebol, judô, bicicleta). Meus pais se separaram cedo, então eu cresci com minha mãe e minhas duas irmãs. Como minha mãe trabalhava, eu cresci também com a ajuda de minha avó. Ela me ajudava muito na escola. Eu aprendi muito com ela sobre a 2ª Guerra Mundial, suas causas e consequências. Eu andava muito pela floresta da Turíngia (pra colher cogumelos e madeira); trabalhei muito no jardim para nosso próprio sustento, pois a provisão de todos os tipos de alimentos na DDR era incerta. A gente recebia às vezes “encomenda do oeste”, da Alemanha Ocidental. Ou então a vovó fazia visitas ao oeste – uma ocasião muito especial para nós. No verão, eu ia para as piscinas públicas e, no inverno, esquiava. Na época havia ainda muita neve na Turíngia! 

Eu era ativo na FDJ (Pioneiros), na DSF (Amizade Alemã-Soviética) e também em associações de esportes. Participava também da “Estação de jovens técnicos e pesquisadores” em meu tempo livre, como atividade de extensão escolar – um lugar no qual a juventude e os cientistas se encontravam. A mesma coisa com os jogos anuais da Juventude Espartaquista. Ou então na formação paramilitar da juventude na GST (Juventude para o Esporte e a Técnica).

Eu lia muito e tentava buscar toda informação possível sobre os países do mundo. Na época não havia internet, computador ou telefone. Então comecei a me interessar por política, geografia e etnografia. Gostava sobretudo de livros do Jack London, Miloslav Stingl e Thor Heyerdahl, Darwin ou Humboldt. Com cerca de 13-14 anos comecei a ler os clássicos do marxismo-leninismo e a desenvolver minhas próprias ideias na escola, pois eu também ouvia rádio e assistia à TV do ocidente (para ter informações sobre o mundo).

Em minha formação profissional gostava de ouvir música dos anos 1980, mas também blues. Também aprendi handball e boxe. No boxe (e no baseball) tive longos contatos com trabalhadores estrangeiros cubanos e aprendi mais sobre a revolução, Che e José Martí. Aqui também havia discussões críticas, pois os cubanos na DDR não estavam felizes!


Como eram as escolas, o tempo livre, a televisão, as brincadeiras?


As escolas estatais eram concebidas como Escolas Superiores Politécnicas (POS), com obrigatoriedade escolar para todos. Os livros eram todos gratuitos e pagava-se pouco pela comida. Havia poucas escolas privadas ligadas à igreja. 95% de todas as escolas da DDR seguiam o modelo das POS, sendo o ensino igual para todos até a 10ª série. Assim foi também comigo. Após a 10ª série eu comecei a formação profissional. Havia também a EOS – a Escola Superior Continuada – até a 12ª série. O acesso à EOS me foi negado, pois minhas concepções políticas não estavam “de acordo com o sistema”. Eu falava sobre as contradições da DDR abertamente!

As escolas eram organizadas com turmas de 20-25 alunos, e as aulas tinham muitos exercícios. Também no período da tarde havia educação física ou atividades políticas obrigatórias e atividades facultativas (inglês, por exemplo). Uma matéria obrigatória na escola era russo!

Como falei: no tempo livre eu praticava esportes, mas tinha também obrigações familiares, fazia compras, jardinagem, ganhava dinheiro (recolhendo recicláveis) e correrias de todo tipo para fazer uma “caixinha”.

Havia na escola, a partir da 7 série, as matérias “Trabalho produtivo” e “Introdução à produção socialista”. Duas “matérias” que o estado utilizava para fazer os jovens trabalharem para si (em empresas reais), e também para prepará-los para o trabalho.

A televisão da DDR tinha apenas dois canais, mas havia também dois canais do leste (ARD, ZDF). A televisão da DDR era muito entediante (exceto o futebol) e na maioria das vezes muito distante da vida real das pessoas simples. No rádio eu gostava de ouvir a rádio americana da Berlim ocidental RIAS. Foi assim que aprendi a traduzir textos do inglês. Eu gostava de jogar futebol com os amigos no verão e frequentava as piscinas públicas. No inverno íamos frequentemente esquiar, ou ao cinema. Gostava de ir a shows de blues, pois havia muitos fãs do estilo entre nós (Weimar tinha uma famosa escola de música e bons clubes para estudantes).

Quase todas as crianças tinham brinquedos, jeans, discos e coisas afins que vinham do ocidente, os quais eles gostavam de compartilhar com os amigos no tempo livre. Na escola a gente aprendia desde cedo a matéria “Trabalhos”, a qual ajudava muita gente depois a conseguir uma vaga nas indústrias ou oficinas. Como costumávamos dizer na época: “fazer ouro a partir de esterco”, pois na DDR faltava frequentemente ferramentas ou matéria-prima.


Havia educação política na escola?


Havia tanto uma aula de história fortemente política quanto uma matéria - odiada por todos - chamada “Cidadania”, a partir do ensino médio. Esta era quase sempre ministrada por membros do partido SED nos coletivos de professores. O objetivo dessas matérias era desenvolver nos alunos um caráter socialista, o que raramente acontecia, pois todos tínhamos nossas próprias opiniões assim como discussões frequentes em casa. A maioria dos professores, no entanto, se dava por satisfeita quando os alunos decoravam o conteúdo. Quem se posicionava criticamente, como eu, tirava notas ruins, ou até mesmo suspensão, como ocorreu comigo. Pois eu lia os clássicos (Marx, Engels, Lenin) e não apenas decorava. Então eu criticava nas aulas: o Muro, as eleições controladas, o abastecimento insuficiente, os privilégios dos “Bonzen” ou também a invasão do exército vermelho ao Afeganistão. Mas eu apoiava a luta de libertação na Nicarágua, na Palestina ou na África do Sul. Fazia parte de nossa formação antifascista visitas ao campo de concentração de Buchenwald, próximo a Weimar, ou ao teatro nacional, na mesma cidade. Religião era coisa privada e proibida na escola. Isso fazia parte de um estado “ateu”.


Como era a questão da segurança?


Como a DDR era fechada pelo Muro, completamente vigiada pelo serviço secreto do estado e havia muitos policiais e espiões, a criminalidade era muito baixa. Os principais criminosos, quando avaliamos  hoje, eram o próprio estado, os seus “Bonzen” (muitos servidores públicos), a Nomenklatura que se enriquecia com a propriedade do povo e os altos funcionários do partido, que tinham dinheiro da Alemanha Ocidental (BRD), podiam viajar para lá e fazer compras nas “Intershop”, ou que tinham acesso à Genex. Ou que ganhavam tanto dinheiro que podiam comprar mercadorias raras e mantimentos nas lojas especiais da DDR. Mas também colegas se “serviam” nos negócios...

Segurança no emprego era garantida a praticamente todos. Exceto para os “antissociais”, ou para pessoas que oficialmente requisitavam uma permissão de viagem (como minha mãe) ou que protestavam contra o regime – estes não tinham nenhuma segurança. Estes poderiam ser presos a qualquer momento!


E como era a política de saúde e os hospitais?


Havia "policlínicas" e hospitais em todos os lugares. Os medicamentos eram gratuitos para todos, raramente você tinha que pagar por alguma coisa. Todo mundo tinha plano de saúde! Apenas para certos tratamentos especiais era necessário pagar do próprio bolso.  Os cuidados de saúde eram bons: desde o jardim de infância e a escola, havia os chamados “exames de triagem” (também dentista), que implementavam a exigência de vacinação do estado e ensinavam todas as crianças e adolescentes em higiene e educação em saúde. Isso era continuado mais tarde na formação profissional (e na vida profissional) e registrado na carteira de trabalho. A partir da 7ª série havia “educação sexual”: muito aberta e educativa. A contracepção era ensinada, assim como um relacionamento aberto e justo entre meninos e meninas. A homossexualidade não era abordada! Oficialmente, havia até uma seção sobre punição no H.S. - que foi abolido apenas nos anos 1980. Havia uma educação sobre AIDS na RDA no final dos anos 1980, mas não oficialmente, pois ela era conhecida como uma "doença sexualmente transmissível", mas ainda não havia sido pesquisada cientificamente. Minha mãe era enfermeira e eu costumava ir à clínica para vê-la no trabalho. Então, aprendi muito sobre o sistema de saúde em todas as suas facetas. Muitos estrangeiros foram tratados em clínicas especiais da RDA (por exemplo, cirurgia cardíaca) – em moeda estrangeira!


Como era a política habitacional? Havia pessoas sem casa? Havia mendigos nas ruas? As casas eram próprias ou alugadas pelo estado?


A maioria (cerca de 80%) da população trabalhadora simples vivia em "edifícios pré-fabricados", em conjuntos habitacionais ou em casas do estado, com um aluguel baixo. Eles pertenciam ao estado, à cidade ou a uma combinação dos dois. As famílias que herdavam, construíam ou compravam uma casa eram em sua maioria privilegiadas e/ou possuíam divisas ou outros "relacionamentos". Somente nos anos 1980 é que a situação da moradia se tornou boa para muitas pessoas. Havia muito poucos "sem-teto"; só aqueles que não queriam morar em casas. Eles moravam em gazebos (casas de jardim) ou em trailers; Os jovens e as pessoas "alternativas" ocupavam casas destruídas para protegê-los contra a demolição (o que era ilegal, mas muitas vezes tolerado).


Você me contou certa vez que foi preso na DDR. O que aconteceu?


Tendo em vista que minha mãe fez um “pedido de saída” e nós, filhos, também tínhamos que fazer isso depois de atingirmos a maioridade, eu enviei um quando tínhamos 18 anos. Meu pedido foi rejeitado após dois anos, de modo que não me foi possível sair legalmente do país. Eu não queria ficar na RDA, era um regime sem liberdade para mim. Naquela época, a única saída me parecia ser deixar o país “ilegalmente”, o que era chamado na linguagem cotidiana de “Republikflucht”! Passei férias na Bulgária em 1988 e queria cruzar a fronteira com a Turquia. Fui pego na fronteira e levado de volta à prisão na RDA. Segundo o “Acordo de Helsinque” (1975), ratificado pela RDA, deixar o país não seria crime. Claro, o estado não aderiu a isso - pelas mesmas razões pelas quais o muro foi construído em 1961. Fui condenado a um ano de prisão por "fugir da república" e fiquei 6 meses preso. Depois de meio ano fui "resgatado" pelo governo da RFA (Alemanha Ocidental) - 100.000 DM (moeda estrangeira) para o governo da RDA ... por meio do escritório de advocacia Vogel em Berlim Oriental!

Fui "deportado" para a Alemanha quando o Muro ainda existia - no início de 1989. Morei na Alemanha Ocidental desde então. Muitos membros da minha família vieram mais tarde para o “Ocidente”. A prisão foi uma época difícil, e minha saúde foi prejudicada. Na RFA fui reconhecido como “preso político”, legalmente reabilitado, recebi “indenização” financeira e auxílio para recuperação.


Por que você quis fugir do país?


Eu apoiei parcialmente o sistema da RDA e a ideia de que era um “socialismo real”, mas também vivi e apontei todas as contradições que eu percebia, o que me trouxe muitos problemas. A partir de 1987, não estava mais convencido de que vivia em um país livre ou em um estado “socialista”. É por isso que eu queria ir para a “liberdade". Mudar o sistema não era possível na época porque todas as oposições eram perseguidas e reprimidas, com algumas exceções (grupos religiosos). Ninguém poderia imaginar, um ano antes, que as coisas ocorreriam tão rápido como foi em 1989, com a queda do Muro de Berlim, a queda da ditadura do SED e a desintegração interna do aparelho de Estado. E isso mesmo com os grandes protestos que já se espalhavam pela população em meados dos anos 80 (petições, pedidos de saída do país, discussões em escolas e empresas, em grandes shows em Berlim e em protestos ambientais). Milhões de pessoas na RDA estavam insatisfeitas com o estado, com o governo e com uma economia quebrada: toda a falta de liberdade política e pessoal. Acima de tudo, o povo estava farto de “debater frases”, paternalismo e opressão. Muitos simplesmente sentiram que o sistema estava "no fim"... mas por muito tempo ninguém quis "dar o primeiro passo"!


Por que foi criado o Muro de Berlim?


Na antiga “zona de ocupação soviética” (no território da RDA), os primeiros passos em direção a uma “democracia popular” foram dados sob a liderança da então ainda socialista União Soviética e de Stalin. Junkers, criminosos de guerra e fascistas foram expropriados e punidos (não todos). Houve uma “reforma agrária”, mas foi ordenada de cima para baixo (sem ampla discussão e conscientização) - em parte com a violência da “administração”. Partidos democráticos e sindicatos antifascistas eram permitidos. Mas tudo foi feito muito rapidamente, de forma prematura e sem uma consciência revolucionária das massas, como por exemplo o processo de unificação do KPD e partes do SPD sob pressão e coerção, mesmo com os avisos de ambos os partidos e sindicatos.

Quando Stalin morreu em 1953, mais e mais “burocratas do partido” tomaram a dianteira na RDA: funcionários que não tinham consciência revolucionária ou de classe e estavam exilados na SU durante a guerra, como Ulbricht (que mais tarde mandou construir o muro). Ao contrário de Thälmann, proletário e presidente do KPD assassinado no campo de concentração de Buchenwald em 1945, eles não tinham experiência real na luta de classes revolucionária. Esses burocratas queriam prescrever a introdução do socialismo a partir de uma “ordem democrática popular”, “de cima para baixo”. Assim, em 1953, ocorreu a “revolta popular de junho”, na qual grande parte da classe trabalhadora protestou contra as normas excessivas de trabalho, os baixos salários e certa escassez de víveres (justificado). Isso foi usado ao mesmo tempo pela "inimiga de classe" (Alemanha Ocidental) e pelo imperialismo estadunidense para provocar e às vezes também para iniciar a sabotagem (por exemplo, no "triângulo da química") e para iniciar uma ampla propaganda anticomunista contra o "socialismo real" (como no filme One, Two, Three de Hollywood (1961)).

Após a derrota do levante de junho de 1953, no qual o Exército Soviético "varreu" os protestos com tanques e unidades de fuzil motorizadas nas ruas (com mortos e feridos), e no qual a "polícia" e o serviço secreto russo NKVD agiram contra os "contrarrevolucionários", negando assim o protesto justificado das  massas, o povo começou então a fugir em massa para o oeste. A RDA havia perdido a luta entre os dois “sistemas” da época (no chamado “voto com os pés”). É por isso que o muro foi construído, para evitar que a RDA “sangrasse”, caso contrário, a guerra poderia ter estourado. Com essa medida ditatorial contra a população, os refugiados foram prejudicados, mas também ficou claro para todos que o povo não tinha poder, tal como deve ser no socialismo verdadeiro (a “ditadura do proletariado”). Os burocratas do partido SED assumiram os negócios na política, na administração, e a partir de meados da década de 1950, o caminho para um estado “socialista” foi interrompido (até então, a “ordem democrática popular” era usada como uma fase de transição).


Na sua opinião, a DDR foi um estado socialista?


Como eu disse, quando adolescente eu não estava totalmente convencido. Então, com a idade de 16/17 anos, ficou claro para mim que aquele não era um socialismo “verdadeiro”. Lá pude conhecer a prática e a luta de classes nas fábricas/canteiros de obras, a forma como os "Apparatchiks" sufocavam qualquer iniciativa. Havia uma piada na RDA que resumia a situação da seguinte forma: "No capitalismo, o homem é explorado pelo homem - no socialismo real é exatamente o contrário!"

Hoje eu sei: em 1945, na área da “zona de ocupação soviética”, havia a esperança de uma alternativa em direção a uma “ordem democrática popular”; de 1953 a 1956, isso acabou se transformando em um “capitalismo burocrático”, não obstante as conquistas sociais, as reformas políticas e todas as “frases” socialistas que se fizeram presentes até o final (1989).


Qual a sua avaliação política sobre o revisionismo na DDR? Quando começou? Teve alguma relação com o revisionismo na União Soviética?


Recomendo a todos os interessados na RDA o livro Socialismo no fim?, de Willi Dickhut (da editora https://www.neuerweg.de). Após a reunificação da Alemanha, conheci o MLPD (Partido Marxista-Leninista da Alemanha) e a obra de Willi Dickhut. Mas também as obras de Stalin e Mao, que não eram acessíveis na RDA! Quando li os 2 volumes da biografia de Dickhut, tudo o que experimentei na RDA fez sentido. Todas as contradições foram resolvidas com a ajuda da crítica dos princípios e da autocrítica. Um camarada do MLPD, que conheci na época, ajudou nisso. Também um trabalhador como eu!

O revisionismo na RDA residia na falta de fundamentos ou de consciência de classe, de consciência socialista na classe trabalhadora quando a RDA foi fundada como um estado. Não houve revolução ou partido revolucionário de massas que destruiu o velho estado. A “Nova Ordem” foi dirigida e controlada pela administração da ocupação soviética em 1945. Entre outras coisas: a união sem princípios de KPD e SPD trouxe carreiristas, burocratas, socialdemocratas e todas as suas formas de pensar e sentimentos pequeno-burgueses, moral e prática em primeiro plano, o que também levou à degeneração na liderança do partido e do estado de 1953 a 1958 (5º congresso do partido do SED). O desejo sincero de unidade antifascista após a guerra encobriu os erros cometidos pelo KPD e SPD antes da guerra em ambos os lados (e crítica honesta e aberta e autocrítica para esclarecer as causas da tomada do poder por Hitler) e não poderia educar as massas, assim, para fornecer essas formas socialmente necessárias de consciência e discussões após a guerra. “Vanguarda” funciona de forma diferente!

A URSS também se tornou, a partir XX congresso do partido em 1956 sob Kruschev, um regime burocrático-capitalista. A liderança do Partido Comunista sob Stalin já havia mostrado desenvolvimentos “críticos” durante e após a Segunda Guerra Mundial. Isso não foi culpa dele sozinho!


No episódio da queda do Muro de Berlim, havia grandes protestos de massas. O que essas massas queriam? Quais eram as pautas concretas? Você acha que houve interferência da CIA ou dos países capitalistas?


As massas queriam liberdade de viagem e expressão, eleições livres e mídia sem censura. Livre escolha profissional, liberdade religiosa, proteção ambiental e, alguns, um “socialismo humano”; o regime do SED e do serviço secreto deveriam ser dissolvidos e os assassinatos no muro deveriam ser julgados!

O lema principal era: “Nós somos o povo!”. Muitos também estavam com medo de tomar as ruas, já que o massacre em Pequim ocorrera meses antes na praça Tieanamen. Mas muitos outros cidadãos da RDA não tinham mais medo e estavam prontos para sacrificar suas vidas. Eu também me sentia da mesma forma.

Em caso de massacre, poderia ter havido uma guerra civil na RDA. Todos tinham medo disso na época, especialmente os figurões do SED, a segurança do estado e a liderança do NVA (Exército Nacional do Povo).

Depois de alguns meses (já era 1990), o governo da RFA (Alemanha Ocidental) e o capital monopolista viram sua chance: como a União Soviética, a "potência protetora" da RDA, revelou um regime mórbido com a “Glasnost & Perestroika” de Gorbachev, bastou um acordo de bilhões de dólares para que a URSS deixasse livre o caminho para a “reunificação”. E isso continua a ter efeitos até hoje (ver anexo da Crimeia + “Nord Stream II”).

A partir da primavera de 90, o slogan “Somos um só povo” se espalhou a partir das mídias ocidentais em toda a Alemanha Oriental (jornal Bild!). Os serviços secretos de França, Inglaterra e EUA tentaram, através tanto da mídia (RIAS, BBC, Radio France) quanto através de outros canais (econômico-políticos, culturais e diplomáticos) influenciar a reunificação em seu favor.

Os partidos ocidentais compraram sua entrada nas lideranças dos partidos e movimentos civis da RDA, a fim de que a primeira eleição “livre” na RDA (março de 1990) pudesse realizar o que o capitalismo da Alemanha Ocidental e o capital financeiro internacional desejavam, como a “reforma da moeda” em junho de 1990, por exemplo. Assim, a “história da RDA” foi reescrita pelos vencedores e o estado foi liquidado! Uma tremenda onda de anticomunismo moderno espalhada sobre todo o país ainda hoje se faz sentir.


Havia uma oposição marxista-leninista na DDR?


Todas as tentativas anteriormente conhecidas de “comunistas” ou “marxista-leninistas” da Alemanha Ocidental para começar um trabalho na RDA nos anos 70 ou 80 foram rapidamente cortadas pela raiz pelo “Serviço de Segurança do Estado”. Mas eu só conheço esses casos através de terceiros.


Que autocrítica a esquerda deve fazer sobre a DDR? Que ensinamentos podemos extrair desta experiência?


A “esquerda” na Alemanha (quero dizer o partido Die Linke e o DKP) nunca comentou de forma honesta, aberta e voluntária sobre os erros políticos da RDA (ou URSS), os crimes da "Staasi", as tropas de fronteira e a escassez burocrática na economia – apenas alguns camaradas fizeram isso, mas de forma individual. Sobre a degeneração burocrática, a traição da estrutura socialista e a mudança para o regime burocrático-capitalista, nada se ouviu de ambos.

Eu mesmo reconheci, entre outros, nos ensinamentos de Mao (revolução cultural) e de W. Dickhut em seu livro Restauração do Capitalismo na União Soviética ensinamentos importantes para a construção de um partido marxista-leninista revolucionário, de um verdadeiro socialismo, para a revolução e a ditadura do proletariado. 

Um conselho importante que daria é: trabalhar juntos internacionalmente, aprender com a experiência de todos os revolucionários, não repetir os erros dos outros, o que é a essência da “doutrina do modo de pensar”. Esta pedra fundamental do pensamento de Willi Dickhut e do MLPD é muito importante, também a nível mundial (fundação do ICOR)! Já são 50 anos de construção de um partido revolucionário em um país imperialista como a Alemanha, e estamos procurando nossos iguais em todo o mundo!

10 mandamentos para o novo homem socialista

Proferidos na quinta convenção do partido da República Democrática Alemã (RDA), em 10 de julho de 1958:


1. Você deve sempre atuar pela solidariedade internacional da classe operária e de todos os trabalhadores, assim como pela aliança inquebrantável de todos os países socialistas.

2. Você deve amar sua pátria e estar sempre pronto a atuar com toda a sua força e capacidade na defesa do poder operário-camponês.

3. Você deve ajudar a eliminar a exploração do homem pelo homem.

4. Você deve executar boas obras pelo socialismo, pois o socialismo leva a uma vida melhor para todos os trabalhadores.

5. Você deve agir, na construção do socialismo, no espírito da ajuda mútua e do trabalho conjunto camarada, estar sempre atento ao coletivo e internalizar suas críticas.

6. Você deve proteger e aumentar a propriedade do povo.

7. Você deve sempre se esforçar para melhorar seu trabalho, ser econômico e aderir à disciplina de trabalho socialista.

8. Você deve criar seus filhos no espírito da paz e do socialismo para torna-los pessoas cultas, com firmeza de caráter e com corpos de aço.

9. Você deve viver de forma limpa e decente e cuidar da sua família.

10. Você deve exercer a solidariedade com aqueles que lutam por sua libertação nacional e com aqueles povos que defendem sua independência nacional.

Walter Ulbricht, 10 de julho de 1958, Berlim
(Tradução de Glauber Ataide)


Qualidade de vida no socialismo era melhor que no capitalismo, revelou estudo

Estudo realizado em 1986 concluiu que as pessoas que vivem no socialismo têm mais saúde, educação e bem estar físico do que aquelas que vivem em países capitalistas de desenvolvimento econômico semelhante. 

Os países socialistas tiveram melhor desempenho em praticamente todas as áreas analisadas de acordo com o estudo dos professores Howard Waitzkin, professor de medicina e de ciências sociais da UCI, e Shirley Cereseto, professora emérita de sociologia da Cal State Long Beach. A pesquisa investigou taxas de mortalidade infantil, expectativa de vida, disponibilidade de médicos e enfermeiros, nutrição, analfabetismo e outros fatores educacionais. 

O estudo não incluiu os EUA ou outros países capitalistas de maior porte econômico pois não havia equivalentes no bloco socialista para comparar. Um cruzamento de dados entre Cuba e os EUA, por exemplo, seria equivocado pois os cubanos não possuem disponíveis os mesmos recursos econômicos que os americanos para aplicar em políticas públicas. Quando a comparação foi realizada em países de mesmo porte, no entanto, a disparidade entre socialismo e capitalismo ficou evidente.

O estudo foi originalmente publicado no American Journal of Public Health e você pode ler a matéria completa uma reportagem (em inglês) sobre o assunto no Los Angeles Times:


A situação das mulheres na Alemanha Socialista

Enquanto atualmente no mundo inteiro apenas 40% das mulheres estão no mercado de trabalho, ganhando até 28% a menos que os homens (no caso do Brasil) para as mesmas funções e sendo responsáveis por apenas 10% da renda mundial, numa sociedade socialista sua situação é bem outra.

Reproduzimos abaixo trechos do livro Berlim: muro da vergonha ou muro da paz?, de Antônio Pinheiro Machado Netto, que viajou à RDA – República Democrática Alemã, ou Alemanha Socialista, na década de 1980, e registrou em forma de livro seu depoimento de tudo que foi possível observar naquele país. Fizemos um recorte dos trechos que dizem respeito especificamente à situação da mulher trabalhadora, mãe e estudante na Alemanha Oriental.

A mulher na RDA na década de 1980

“… 90% de todas as mulheres entre 15 e 60 anos de idade trabalham ou estão a qualificar-se profissionalmente.

“Aliás, as mulheres – porque discriminadas no regime capitalista – merecem uma referência especial neste depoimento.

“Registra-se que – nos serviços de saúde e assistência social – 80% dos empregados são mulheres. Em cada duas mulheres, uma é médica, dentista ou farmacêutica. Na economia, uma em cada quatro mulheres exerce função destacada. Também nas cooperativas de produção agrícola é expressiva a participação feminina: em cada três presidentes, um é mulher, o mesmo ocorrendo entre juízes – em três, um é mulher.

“As mães de dois filhos tem jornada de trabalho reduzida, até que os filhos completem 16 anos, lembrando-se, ainda, que a mulher tem participação especial em alguns tipos de trabalho, em razão de sua natureza física.

“A licença de gravidez é de 6 semanas antes e 20 semanas depois do parto.

“Na RDA, hoje, se as mães desejarem, 657 crianças, em 1.000, de zero a um ano, podem frequentar creches, onde recebem toda a assistência material, social e médica de pessoal especializado, gratuitamente. Todas as crianças de um a quatro anos – se os pais quiserem – frequentarão creches especiais, o mesmo em relação às crianças (todas) de três anos de idade até o início da escolaridade, que tem acesso aos jardins de infância na RDA, tudo gratuitamente. Melhor dito. Nessas creches especiais e nos jardins de infância não há restrições quanto a vagas. As crianças da RDA, hoje, tem assegurada essa possibilidade. Tem vaga para todas.”

[…]

“Cerca de 13% das estudantes são mães, número com tendência a crescer. Elas, assim como os casais de estudantes com filhos, são especialmente assistidas pelas universidades, escolas superiores e pelo Estado. Vivem sobretudo nos internatos e recebem preferencialmente lugares nas creches e jardins de infância (a assistência às crianças é gratuita na RDA, os pais participam apenas com 85 ou 55 pfennigs por dia nas despesas para comida e leite). Para cada filho é pago, além da bolsa mensal de estudo básica, um subsídio de 50 marcos.

“As estudantes se beneficiam com todas as outras regalias sociais proporcionadas pelo Estado, como licença paga de gravidez e maternidade de 26 semanas, o subsídio estatal mensal de 20 marcos para o primeiro e o segundo filhos, e de 1.000 marcos a partir do terceiro.

“Para o equipamento de casa, jovens casais podem recorrer a um crédito estatal, sem juros, de 5.000 marcos cujo prazo de reembolso é de oito anos. Se nesse período nascem filhos, o reembolso é diminuído de 1.000 marcos em caso do primeiro, 1.500 em caso do segundo e quitados os restantes 2.500 marcos na eventualidade de um terceiro filho.

“A fim de ajudar as estudantes grávidas e estudantes-mães a concluírem seus estudos, as faculdades oferecem alternativas especiais com vistas à recuperação das ausências a aulas e exames, o que se processa através de atendimento individual, planificando cada caso, sem qualquer prejuízo.

“A pedido da estudante, pode até ser cumprido um plano especial de estudo que resulte em acrescentar mais um ou dois anos ao período normal do curso.

“Mas a bolsa de estudo continua a ser paga plenamente. Assim, nesses casos as universidades e escolas superiores são obrigadas a garantir a continuação do estudo depois da licença.

“Os regulamentos são válidos independentemente de a jovem mulher ser casada ou não, referindo-se também a pais que estão sozinhos com a criança, o que também acontece.”

Como podemos ver, apesar do revisionismo, que aos poucos levou à restauração do capitalismo em vários países do leste europeu, as conquistas dessas experiências – que se mostraram superiores ao capitalismo – devem ser relembradas, pois mostram que o caminho da libertação da mulher e do fim da exploração do homem pelo homem passam, necessariamente, pelo socialismo.

Odeio o Ano Novo

Odeio o Ano Novo

Antonio Gramsci
Avanti! , 1º de Janeiro de 1916.

Toda manhã, ao acordar mais uma vez sob o manto do céu, sinto que para mim é o primeiro dia do ano.

Por isso odeio estes anos novos a prazo fixo, que transformam a vida e o espírito humano em uma empresa comercial, com sua prestação de contas, seu balanço e suas previsões para a nova gestão. Eles fazem com que se perca o sentido de continuidade da vida e do espírito. Termina-se por acreditar a sério que entre um ano e outro exista uma solução de continuidade e comece uma nova história; fazem-se promessas e projetos, as pessoas se arrependem dos erros cometidos, etc. É um equívoco geral que afeta a todas as datas.

Dizem que a cronologia é a ossatura da história. Pode-se admitir que sim. Mas também é preciso admitir que há quatro ou cinco datas fundamentais, que toda pessoa conserva gravadas no cérebro, datas que tiveram efeito devastador na história. Também elas são primeiros dias de ano. O Ano Novo da história romana, ou da Idade Média, ou da era moderna. Elas se tornaram tão invasivas e tão fossilizantes que nos surpreendemos a pensar algumas vezes que a vida na Itália começou em 752, e que 1490 ou 1492 são como montanhas que a humanidade ultrapassou de um só golpe para entrar em um novo mundo e em uma nova vida. Com isso, a data converte-se em um fardo, um parapeito que impede que se veja que a história continua a se desenvolver de acordo com uma mesma linha fundamental, sem interrupções bruscas, como quando o filme se rompe no cinematógrafo e se abre um intervalo de luz ofuscante.

Por isso odeio a passagem do ano. Quero que cada manhã seja um ano novo para mim. A cada dia quero ajustar as contas comigo mesmo e renovar-me. Nenhum dia previamente estabelecido para o descanso. As pausas eu escolho sozinho, quando me sinto embriagado de vida intensa e desejo mergulhar na animalidade para extrair um novo vigor. Nenhum travestismo espiritual. Cada hora da minha vida eu gostaria que fosse nova, ainda que vinculada às horas já transcorridas. Nenhum dia de júbilo coletivo obrigatório, a ser compartilhado com estranhos que não me interessam. Só porque festejaram os avós dos nossos avós, etc., teremos também nós de sentir a necessidade de festejar. Tudo isso dá náuseas.

Espero o socialismo também por esta razão. Porque mandará para o lixo todas estas datas que já não têm nenhuma ressonância em nosso espírito. E se o socialismo vier a criar novas datas, ao menos serão as nossas e não aquelas que temos de aceitar sem benefício de inventário dos nossos ignorantes antepassados.

Queda do socialismo no leste europeu: privatizações mataram 1 milhão de pessoas

Com a queda do socialismo no Leste Europeu e a "terapia de choque" rumo a uma "economia de mercado", nos moldes da cartilha neoliberal, cerca de 1 milhão de pessoas em idade produtiva (entre 15 e 59 anos) foram mortas. Estes dados são resultado desta pesquisa publicada no jornal The Lancet, da Universidade de Oxford, em 2009.

O programa de rápida privatização levou a um aumento de 56% da taxa de desemprego nos antigos países socialistas, os quais também passaram pela pior taxa de mortalidade dos 50 anos anteriores à década de 1990, com mais de 3 milhões de mortes evitáveis e 10 milhões de homens "desaparecidos", segundo a ONU.

Estas informações são criminalmente omitidas pela burguesia e sua imprensa, que prometeu o céu e entregou o inferno a esses países. A sedução de um paraíso de gadgets e outras mercadorias inúteis oferecidas pelo capitalismo, além de não ter se efetivado no Leste Europeu, requereu ainda um alto custo humano. Mais de 20 anos após a queda do socialismo, o que se verifica na região é o aumento da disparidade econômica com o restante da Europa, e não a prometida aproximação.

Segundo esta reportagem do Financial Post, o Leste Europeu tem enfrentado nos últimos anos um grande êxodo de sua população, sendo o gap econômico entre a região e o restante da Europa uma de suas principais causas. A Hungria, por exemplo, tinha uma população de 10,4 milhões de pessoas em 1989. Mais de 20 anos depois, já em 2012, tinha menos de 10 milhões.

A economia paralela na URSS: Como tudo começou

A economia paralela na URSS: Como tudo começou 
por Valentine Katassonov

"A economia paralela, enquanto fenômeno assinalável, surgiu no final dos anos 50, princípios dos anos 60. Todos os investigadores univocamente relacionam este fenômeno com a chegada ao poder de Khruchov, que a par de outras decisões irrefletidas, fez sair da garrafa o gênio da economia paralela. É de assinalar que até aqueles autores que fazem uma apreciação bastante negativa da figura de Stáline, são obrigados a reconhecer que no período em que Stáline esteve no poder, não havia praticamente economia paralela ou clandestina. Em contrapartida havia a pequena produção mercantil, nomeadamente as cooperativas artesanais e industriais nas cidades. Khruchov liquidou a pequena produção mercantil, e o seu lugar foi ocupado pela economia paralela."

"Os donos de negócios ilegais acumularam capitais tão importantes que puderam começar a fazer lobby junto do poder político do País. Mas os limites do modo de produção socialista, mesmo que já só formais em muitos aspectos, tornaram-se apertados para os empresários da economia paralela. Começaram então a preparar a restauração completa do capitalismo. Isso aconteceu no período em que Gorbatchov estava no poder, sob a capa das consignas falsas lançadas na perestroika. Esta perestroika, em última análise, foi iniciada não por Gorbatchov ou Iákovlev. Ela foi organizada pelo capital clandestino, por ordem de quem agiram os «reformadores» do PCUS."

A questão sobre a derrocada e destruição da URSS está longe de ser fútil. Ainda hoje, passados 22 anos do desaparecimento da URSS, não perdeu a sua actualidade. Porquê? Porque, na base deste acontecimento, alguns tiram a conclusão de que o modelo económico capitalista é mais competitivo, mais eficiente e não tem alternativa. Após a derrocada da URSS, o politólogo norte-americano, Francis Fukuyama, apressou-se mesmo a proclamar o advento do «fim da história»: a humanidade teria atingido a fase superior e última do seu desenvolvimento na forma do capitalismo universal, global.


A actualidade do estudo da economia paralela na URSS 

Na opinião de politólogos, sociólogos e economistas deste tipo, o debate do modelo econômico socialista não merece a mínima atenção. É melhor concentrar todos os esforços no aperfeiçoamento do modelo econômico capitalista, isto é, no modelo que orienta todos os membros da sociedade para o enriquecimento, e em que este enriquecimento (a obtenção de lucro) se faz mediante a exploração de uma pessoa por outra. É certo que deste modo emergem as características «naturais» do modelo capitalista, como a desigualdade social e material, a concorrência, as crises cíclicas, as falências, o desemprego, e tudo o mais. Todos os aperfeiçoamentos que se propõem visam apenas atenuar as consequências desumanas do capitalismo, o que faz lembrar como são vãs as tentativas de limitar o apetite do lobo que está a devorar uma ovelha.

Partiremos do pressuposto de que as características sociais e económicas principais do modelo socialista são a garantia do bem-estar de todos os membros da sociedade (objectivo), a propriedade social dos meios de produção (meio principal), a obtenção de rendimentos exclusivamente do trabalho, o carácter planificado da economia, a centralização da direcção da economia nacional, a detenção pelo Estado das alavancas de controlo, os fundos sociais de consumo, o carácter limitado das relações monetário mercantis, etc.

Entendemos por bem-estar não só o acesso a produtos e serviços, que asseguram a satisfação das necessidades vitais (biológicas) humanas. Aqui devemos também incluir a segurança social e a protecção, a educação, a cultura, as condições de trabalho e repouso.

É claro que o socialismo não é apenas economia e relações sociais. Ele pressupõe igualmente um determinado tipo de poder, de ideologia e um elevado nível de desenvolvimento espiritual e moral da sociedade, entre outros. Elevadas necessidades espirituais e morais devem pressupor as mais altas aspirações no que toca aos objectivos sociais e econômicos. É precisamente sobre o aspecto social e econômico do modelo socialista que nos vamos concentrar.

Pois bem, a erosão do modelo socialista começou muito antes dos acontecimentos trágicos de Dezembro de 1991, quando foi assinado o vergonhoso acordo sobre a divisão da URSS na floresta de Bieloveja.2  Este foi o acto final do regime político. É a data não só da morte da URSS, mas a da completa legalização do novo modelo social e econômico, que se chama «capitalismo». No entanto, o capitalismo oculto amadureceu no seio da sociedade soviética ao longo de cerca de três décadas. A economia soviética há muito que tinha adquirido, de facto, traços de uma economia multiforme. Nela conjugavam-se estruturas socialistas e capitalistas. Aliás, alguns investigadores e políticos estrangeiros consideraram que a completa restauração do capitalismo na URSS teve lugar logo nos anos 60 e 70. Nomeadamente, logo no início dos anos 60, Willi Dickhut,3  membro do Partido Comunista Alemão, iniciou uma série de artigos nos quais constatava que, com a chegada ao poder de N.S. Khruchov, ocorreu (não começou, mas sim ocorreu!) a restauração do capitalismo na URSS.4

A economia paralela funcionava segundo princípios distintos dos socialistas. De uma forma ou doutra, estava ligada à corrupção, à delapidação do patrimônio do Estado, à obtenção de rendimentos não provenientes do trabalho, à violação das leis (ou utilização de «buracos» na legislação»). Mas não se deve confundir a economia paralela com a economia «não-oficial», que não contrariava as leis e os princípios da sociedade socialista, mas apenas complementava a economia «oficial». Isto refere-se primeiramente à actividade laboral individual, por exemplo, o trabalho do kolkhoziano na sua parcela pessoal ou do citadino no quintal da sua casa de campo. E na melhor época (sob Stáline), as cooperativas de produção, que se dedicavam à produção de artigos de consumo e aos serviços, conheceram um amplo desenvolvimento.

Na URSS, as autoridades estatais e partidárias preferiram não encarar o fenômeno da economia paralela. É claro que os órgãos judiciais descobriam e desmontavam diferentes operações na esfera da economia paralela. Mas os dirigentes da URSS, confrontados com tais episódios, fugiam ao assunto com frases do tipo «insuficiências isoladas»,«deficiências», «erros», etc. Por exemplo, no início dos anos 60, o então primeiro-vicepresidente do Conselho de Ministros da URSS, Anastás Mikoian, definiu o mercado negro na URSS como «uma mão cheia de espuma suja, que flutua à superfície da nossa sociedade».


A economia paralela na URSS: algumas avaliações

Até ao final dos anos 80 não existiam na URSS quaisquer investigações sérias sobre a economia paralela. As primeiras surgiram no estrangeiro. Desde logo deve-se referir o trabalho do sociólogo norte-americano, Gregory Grossmann (Universidade da Califórnia), intitulado A Autonomia Destruidora. O Papel Histórico de Tendências Reais na Sociedade Soviética. Este trabalho teve grande divulgação ao ser publicado, em 1988, na colectânea Luz ao Fundo do Túnel (Universidade Berklay, sob coordenação de Stephen F. Cohen). No entanto, o primeiro artigo de Grossmann sobre este tema surgiu ainda em 1977 com o título «A segunda economia da URSS» (revista Problemas do Comunismo, Setembro/Outubro de 1977).

Também se pode referir o livro do jurista soviético, emigrado nos EUA, Konstantine Simissa, Corrupção na URSS – O Mundo Secreto do Capitalismo Soviético, editado em 1982. O autor teve ligações estreitas nos anos 70 com alguns elementos da economia paralela, dos quais foi advogado em processos judiciais. Porém, K. Simi ss, não fazqualquer avaliação quantitativa da economia paralela.

Mais tarde surgiram trabalhos dos sociólogos e economistas norte-americanos de descendência russa, Vladimir Treml e Mikhail Alekséiev. A partir de 1985, Gregory Grossmann e Vladimir Treml editam periodicamente colectâneas sobre a economia paralela na URSS. A edição manteve-se até 1993, tendo sido publicadas 51 investigações realizadas por 26 autores. Muitas investigações baseavam-se em inquéritos sociológicos realizados juntos de famílias emigrantes da URSS (ao todo foram entrevistadas 1061 famílias). Foram também utilizados inquéritos a emigrantes de outros países socialistas, estatísticas oficiais da URSS, materiais publicados na imprensa generalista e nas revistas científicas da União Soviética. Apesar de as avaliações quantitativas variarem consoante os autores, tais discrepâncias não são fundamentais. As diferenças devem-se ao facto de uns autores analisarem a «economia não-oficial» e outros a «economia paralela». Deste modo, as avaliações de uma e outra não podiam coincidir.

Vejamos alguns resultados destas investigações.

1. Em 1979 a produção ilegal de vinho, cerveja e outras bebidas alcoólicas, bem como a revenda especulativa de bebidas alcoólicas, produzidas na economia «oficial», gerava receitas equivalentes a 2,2 por cento do PIB (Produto Interno Bruto).

2. Nos finais dos anos 70, o mercado paralelo de gasolina prosperava na URSS. Entre 33 a 65 por cento dos abastecimentos de automóveis particulares, nas regiões urbanas do país, eram feitos com gasolina vendida por motoristas de empresas e organizações do Estado (a gasolina era vendida a preços inferiores aos fixados pelo Estado).

3. Nos cabeleireiros soviéticos, as receitas não declaradas superavam o montante que os clientes pagavam através da caixa. Isto é um dos exemplos de que algumas empresas do Estado pertenciam, de facto, à economia paralela.

4. Em 1974, o trabalho em terrenos particulares representava quase um terço das horas de trabalho dispendidas na agricultura, que constituíam quase dez por cento de todo o tempo de trabalho na economia da URSS.

5. Nos anos 70, cerca de um terço da produção da agricultura provinha das parcelas particulares, e uma parte significativa dessa produção era escoada nos mercados dos kolkhozes.

6. No final dos anos 70, cerca de 30 por cento dos rendimentos da população urbana eram obtidos em diferentes tipos de actividades privadas, tanto legais como ilegais.

7. No final dos anos 70, a «economia paralela» ocupava entre dez a 12 por cento do total da força de trabalho da URSS.

No final os anos 80 surgiu na URSS uma série de trabalhos sobre a economia paralela. Em primeiro lugar temos as publicações da economista soviética, Tatiana Koriáguina, e do director do Instituto de Investigação Científica do Gosplan, Valéri Rutgueizer. Eis alguns dados da investigação de T. Koriáguina: 

No início dos anos 60, o valor anual das mercadorias e serviços produzidos e vendidos ilegalmente representava cinco mil milhões de euros, enquanto no final dos anos 80 já atingia cerca de 90 mil milhões de rublos. Em 1960, o PIB da URSS (preços correntes) era de 195 mil milhões de rublos e, em 1990, de 701 mil milhões de rublos. Deste  modo, a economia da URSS, em 30 anos cresceu 3,6 vezes, enquanto a economia paralela cresceu 14 vezes. Se em 1960, a economia paralela representava 3,4 por  cento do PIB oficial, em 1988 esta proporção era já de 20 por cento. E se é verdade que o seu peso caiu para 12,5 por cento em 1990, tal ficou a dever-se à alteração da legislação soviética que legalizou uma série de actividades econômicas privadas, antes consideradas ilegais.

Segundo a avaliação de Koriáguina, a economia paralela empregava seis milhões de pessoas, número que subiu para 17-20 milhões de pessoas em 1970 (6-7 por cento da população), e atingiu os 30 milhões em 1989, ou seja, 12 por cento da população da URSS.

Perigos e consequências do desenvolvimento da economia paralela na URSS

Os investigadores, tanto soviéticos como norte-americanos, analisaram algumas especificidades da economia paralela e a sua influência na situação geral da URSS.

1. A economia paralela, enquanto fenômeno assinalável, surgiu no final dos anos 50, princípios dos anos 60. Todos os investigadores univocamente relacionam este fenômeno com a chegada ao poder de Khruchov, que a par de outras decisões irrefletidas, fez sair da garrafa o gênio da economia paralela. É de assinalar que até aqueles autores que fazem uma apreciação bastante negativa da figura de Stáline, são obrigados a reconhecer que no período em que Stáline esteve no poder, não havia praticamente economia paralela ou clandestina. Em contrapartida havia a pequena produção mercantil, nomeadamente as cooperativas artesanais e industriais nas cidades. Khruchov liquidou a pequena produção mercantil, e o seu lugar foi ocupado pela economia paralela.

2. A economia paralela estava mais desenvolvida nas regiões centrais da URSS do que na periferia do país. Grossmann estimou que, no final dos anos 70, os proventos com origem na economia paralela representavam cerca de 30 por cento dos rendimentos da população urbana da URSS. Na República da Rússia, estes proventos estavam em linha com a média nacional, mas na Bielorrússia, Moldávia e Ucrânia elevavam-se a cerca de 40 por cento, e na Transcaucásia e Ásia Central atingiam quase 50 por cento dos rendimentos da população urbana. Na Armênia, entre os nacionais armênios, este indicador disparava para 65 por cento. A hipertrofia da economia paralela numa série de repúblicas da União criava a ilusão de que tais repúblicas eram «auto-suficientes». Dado que parecia que tinham um nível de vida mais elevado do que na Rússia, então podiam subsistir e desenvolver-se à parte da URSS. Tudo isto criou um terreno propício para movimentos nacionais separatistas nas repúblicas.

3. A economia paralela existia à custa dos recursos do Estado. Uma parte significativa das suas actividades só podia ser desenvolvida mediante a delapidação dos recursos materiais das empresas e organizações do Estado. No entanto, criou-se a ilusão de que a economia paralela complementava as insuficiências da economia oficial. O que acontecia na realidade era uma «redistribuição» dos recursos do sector estatal (e kolkhoziano) para a economia paralela.

4. A economia paralela gerava corrupção. Os proprietários de estruturas clandestinas subornavam dirigentes e funcionários das empresas e organizações do Estado. Para quê?Para que, no mínimo, não perturbassem os negócios escuros; no máximo, se tornassem cúmplices, colaborando no fornecimento de matérias-primas, mercadorias, meios de transporte, etc. Este era o primeiro nível, microeconómico, da corrupção. Seguia-se o nível regional, que estava ligado ao suborno dos órgãos judiciais e em geral dos órgãos regionais de poder de Estado. Criou-se assim um sistema de protecção regional dos negócios ilegais. Por fim, a corrupção atingiu o terceiro nível no Estado central. Os homens da economia paralela começaram a fazer lobby em prol dos seus interesses econômicos nos ministérios e departamentos. A economia apenas formalmente continuava a desenvolver-se de forma planificada e as decisões econômicas directoras começaram a ser tomadas ao nível central sob influência dos homens da economia paralela.

5. Os donos de negócios ilegais acumularam capitais tão importantes que puderam começar a fazer lobby junto do poder político do País. Mas os limites do modo de produção socialista, mesmo que já só formais em muitos aspectos, tornaram-se apertados para os empresários da economia paralela. Começaram então a preparar a restauração completa do capitalismo. Isso aconteceu no período em que Gorbatchov estava no poder, sob a capa das consignas falsas lançadas na perestroika. Esta perestroika, em última análise, foi iniciada não por Gorbatchov ou Iákovlev. Ela foi organizada pelo capital clandestino, por ordem de quem agiram os «reformadores» do PCUS.5


Notas

1 Valentine Iúrievitch Katassonov (1950) licenciou-se no Instituto Estatal de Relações Internacionais – MGIMO (1972), onde seguiu a carreira académica tornando-se professor da cátedra de Finanças Internacionais. Doutorado em Ciências Económicas, chefiou entre 2001 e 2011 a cátedra de Relações Internacionais de Crédito e Divisas do MGIMO, adstrita ao Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia. Entre 1991 e 1993 foi consultor da ONU, no departamento de Problemas Económicos e Sociais. De 1993 a 1996 integrou o conselho consultivo do presidente do Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD). Autor de dezenas de obras sobre temática econômica, é actualmente presidente da Associação Russa de Economia S.F. Charapov. Serguei Fiódorovitch Charapov (1855-1911) foi um economista e político russo, aristocrata eslavófilo, que preconizava um modelo de desenvolvimento «genuinamente russo», em oposição ao capitalismo ocidental, assente na autocracia, na igreja ortodoxa e nas especificidades do povo russo. Inspirada nas ideias de Charapov, a referida Associação afirma-se contrária à adesão da Rússia à Organização Mundial do Comércio e alerta para os perigos da transformação do país numa mera colônia da oligarquia financeira mundial. Como se pode ler no seu site (reosh.ru), a Associação pretende «dar um impulso à união dos empresários russos para a realização de projectos conjuntos, ajudar todos os russos a se libertarem das concepções econômicas liberais e a formarem a sua visão nacional da economia». Pelo exposto fica claro que o autor não parte de concepções marxistas para a análise de aspectos relevantes da história da URSS, como aqueles que são tratados no presente texto, publicado no dia 3 de Fevereiro, bem como noutros trabalhos, que contamos oportunamente divulgar. (N. Ed.)

2 O acordo de Bieloveja (na Bielorrússia), sobre a criação da Comunidade de Estados Independentes e a extinção da União das Repúblicas Soviéticas Sociatistas (URSS), foi assinado, a 8 de Dezembro de 1991, pelos líderes das repúblicas soviéticas da Rússia (RSFSR), da Bielorrúsia e da Ucrânia, respectivamente Boris Éltsine, Stanislav Chukevitch e Leonid Kravchuk. (N. Ed.)

3 Willi Dickhut (1904-1992), serralheiro e torneiro mecânico, entrou para o partido Comunista da Alemanha em 1926. Viveu oito meses na URSS (1928-1929), onde trabalhou como operário especializado. Regressado à Alemanha, é eleito em Março de 1933 membro da Assembleia Municipal da cidade de Soligen (região administrativa de Dusseldorf, estado da Renânia do Norte-Vestfália),mas é forçado a passar à clandestinidade pouco depois, na sequência da ascensão de Hitler ao poder.Preso em 1938, é condenado a de 21 meses de prisão. É novamente preso em Agosto de 1944, mas os bombardeamentos dos aliados dão-lhe uma oportunidade de fuga em Novembro do mesmo ano. Depois de 1945, integra a direcção do partido como responsável adjunto pela secção de quadros. Em 1966, após se ter manifestado criticamente sobre a situação na URSS, é expulso do partido (DKP). Liga-se mais tarde ao Partido Comunista da Alemanha (marxista-leninista). Em 1972 participa na fundação da Liga Operária Comunista da Alemanha, que vem a integrar o Partido Marxista-Leninistada Alemanha, fundado em 1982. O seu principal trabalho, e base teórica das formações políticas que dirige, é o livro A Restauração do Capitalismo na União Soviética, publicado em várias partes entre o início dos anos 1971 e 1988. (N. Ed.)

4 A tese sobre a restauração completa do capitalismo na URSS nos anos 50, 60 ou 70 suscita fundadas objecções. Não para contraditar o autor, que nos fornece informação importante sobre a URSS, vale no entanto a pena citar a este propósito uma passagem do artigo «A restauração do modo de produção capitalista na União Soviética», publicado pela revista italiana Rapporti Sociali: «É inconsistente a tese que afirma que a restauração do modo de produção capitalista na URSS se realizou nos anos 50. (…) Apesar de numerosas tentativas e experiências, Khruchov, Kossíguine e Bréjnev nunca chegaram a introduzir à escala geral a gestão da economia mediante o “cálculo econômico”, como lhes chamavam, ou a “autonomia financeira” das unidades produtivas; ou seja, através do rendimento em dinheiro resultante da actividade da cada unidade produtiva. Por isso nunca chegaram a converter o mercado (ou, como diziam, “os contactos directos entre as unidades produtivas”) em regulador geral da actividade econômica. O comércio externo continuou a ser monopólio do Estado. A força de trabalho só marginalmente foi reduzida à condição de mercadoria (a liberdade de compra e venda é uma característica essencial da sua natureza de mercadoria). A planificação econômica dos países socialistas, inclusivamente lá onde se mostrava ineficaz, a única coisa que tinha em comum com o monopólio que existia nos diferentes sectores dos países imperialistas era a aparência; com efeito, o que é específico do monopólio na sociedade burguesa é a obtenção de um super lucro em relação a outros sectores do capital, que continuam operando em condições de concorrência. O facto de se ter esquecido tudo isto e falar de restauração do capitalismo levou inevitavelmente a uma crítica idealista dos revisionistas modernos, ou seja, a uma crítica que punha em primeiro plano a superstrutura (a política e a cultura) e em segundo plano a estrutura económica. (…)

(http://www.hist-socialismo.com/docs/Restauracao CapitalismoURSS.pdf) (N. Ed.)

5 O tema da economia paralela na URSS é tratado com grande profundidade no livro de Roger Keeran e Thomas Kenny, O Socialismo Traído – Por Trás do Colapso da União Soviética, Edições Avante!, Lisboa, 2004. (N. Ed.)

Revolução Russa para crianças - Paz, Pão e Terra

O vídeo abaixo é a canção-tema de um episódio de uma série de desenhos animados chamado "Histeria!", da Warner Bross, que foi originalmente exibida de 1998 a 2000. A série era educativa e cada episódio ensinava sobre um personagem ou evento histórico. A música abaixo, chamada Peace, Land and Bread (Paz, Terra e Pão) é do episódio sobre a Revolução Russa de 1917.

É interessante notar como o anti-stalinismo é o verdadeiro cavalo de batalha quando se fala em revolução ou socialismo. No desenho, Lênin tem como braço direito Trotsky, que na vida real sempre foi do partido menchevique, polemizou com Lênin em questões centrais da revolução e só se aliou aos bolcheviques meses antes da revolução. Stálin, ao contrário, sempre foi do partido bolchevique, ao lado de Lênin, e como consequência do reconhecimento geral de sua grande competência e abnegação pela causa revolucionária foi indicado para diversos cargos e funções no partido. Mas no desenho Stálin é deixado de lado, e no final é até mesmo comparado ao Tsar.

Essas e algumas outras considerações à parte, o desenho apresenta algumas das justas reivindicações imediatas que levaram á eclosão da revolução, além de Pão, Paz e Terra.


União Soviética a cores, na era de Stálin

As fotos abaixo são da revista Soviet Union Magazine, e mostram a vida na União Soviética ainda no período de Stálin, em 1952. A revista era publicada em russo, francês, inglês, alemão e espanhol, e servia para divulgar para os trabalhadores do exterior como era a vida na URSS.

O canal Volga-Don

Fartura na sociedade socialista

Professoras pensam o futuro do socialismo



Cuidado, vovô, ou vou te denunciar para a NKVD!

Um homem parecido com Yuri Gagárin

Mulheres do Exército Vermelho discutem o materialismo dialético

Olhando para um futuro radiante



Trabalhadores conseguem uma nova casa, e já pensam onde pendurar o quadro de Stálin

Camponesas com Kruschev

Vida familiar

Desenvolvendo limões em um laboratório


Trabalho no campo


Camponesa em fazenda coletivizada

Diversas construções na era de Stálin, ainda se recuperando da II Guerra Mundial


Salada soviética


Supermercado soviético: fartura de alimentos e trabalhadores não eram explorados



Einheitsfrontlied - Canção da frente unida dos trabalhadores



Letra de Bertolt Brecht e música de Hanns Eisler, de 1936. Uma das músicas mais conhecidas dos trabalhadores. O vídeo acima é uma regravação mais recente, com vocal forte e marcante, bem adequado ao idioma alemão.

Tradução de parte do refrão:

"Junte-se à frente unida dos trabalhadores
Pois você também é um trabalhador"

Einheitsfrontlied
(Bertolt Brecht \ Hanns Eisler)

Und weil der Mensch ein Mensch ist,
Drum braucht er was zum Essen, bitte sehr!
Es macht ihn ein Geschwätz nicht satt,
Das schafft kein Essen her.

|: Drum links, zwei, drei! :|
Wo dein Platz, Genosse ist!
Reih dich ein, in die Arbeitereinheitsfront,
Weil du auch ein Arbeiter bist.

Und weil der Mensch ein Mensch ist,
Drum braucht er auch Kleider und Schuh!
Es macht ihn ein Geschwätz nicht warm
Und auch kein Trommeln dazu!
Drum links, . . . .

Und weil der Mensch ein Mensch ist,
Drum hat er Stiefel im Gesicht nicht gern!
Er will unter sich keinen Sklaven sehn
Und über sich keinen Herrn
Drum links . . . .

Und weil der Prolet ein Prolet ist,
Drum wird ihn kein anderer befrein.
Es kann die Befreiung der Arbeiter
Nur das Werk der Arbeiter sein.
Drum links, . . . .

As cidades soviéticas do futuro imaginadas nos anos 1970

Devido à avançada cultura da sociedade soviética a juventude tentava, entre outras inquietudes científicas, imaginar e plasmar o que seria seu país, a União Soviética do século XXI. Na década de 1970 os Pioneiros ilustraram seu trabalho em centenas de publicações dedicadas à ciência, à arte e à tecnologia, dentre as quais se destacava “Technika Molodezhi” (Juventude Técnica).


Anos 1974-1975: Cidades soviéticas do ano 2000







Aviões que voam debaixo d'água, colheitadeiras automáticas e uma escavadora (1970)


Conceito artístico de elevador espacial (1970) e a Cidade Voadora de Vênus (1971)


Conceito de cidade futurista desenhado em 1967, na qual se podem ver os planos da distribuição destes edifícios com forma de pirâmides


Conceito de estacionamento futurista, na qual em cada círculo do painel giratório se localiza um carro (1975)


Casas para o norte da Sibéria (1972)















Nem tudo era ficção para os Pioneiros. Trabalhando em um modelo de transporte público da época
Fonte: El Socialismo es la solución