Hegel e a dialética da evolução e da revolução

Uma importante passagem da Lógica de Hegel foi de fundamental importância para assinalar a distinção entre evolução e revolução. Segundo Lukács, o mérito de tal observação cabe ao grande teórico marxista russo Plekhanov.

Ao falar sobre a distinção entre quantidade e qualidade, sobre o acúmulo quantitativo e a possibilidade de uma transformação de um aspecto em outro, Hegel afirma: “Mas esse caráter gradual diz respeito somente ao aspecto exterior da modificação, e não ao seu aspecto qualitativo; a relação quantitativa precedente, infinitamente próxima da seguinte, é ainda uma outra existência qualitativa [...] Procura-se de bom grado tornar concebível uma modificação pelo caráter gradual da transição; mas este é, antes de tudo, justamente a mudança indiferente, o contrário da mudança qualitativa.”

E ele prossegue: “No caráter gradual, suprime-se a conexão das duas realidades – elas passam a ser tomadas como estados ou coisas autônomas; sabe-se que [...] um é simplesmente exterior ao outro; desse modo, afasta-se justamente aquilo que é necessário para a compreensão, embora se exija tão pouco para isso [...] Sendo assim, o nascimento e o perecimento são suprimidos, ou o em-si, o estado interior de algo antes de sua existência é transformado em pequenez da existência exterior, e a diferença essencial ou conceitual passa a ser uma simples diferença exterior de grandezas.”

O revisionismo, por isso, é antidialético: ele considera possível um “acúmulo gradual” de forças e transformações quantitativas no capitalismo até que este passe por uma transformação qualitativa em direção ao socialismo. Mas, como mostra Hegel nessa passagem, uma relação quantitativa, mesmo quando muito próxima de uma seguinte, é ainda “o contrário da mudança qualitativa”.

Rosa Luxemburgo já denunciava em sua obra Reforma ou revolução? que, no revisionismo de Bernstein, a luta sindical, ao invés de representar a preparação subjetiva do proletariado para a transformação socialista, representava uma redução por etapas da própria exploração capitalista, arrancando cada vez mais da sociedade capitalista o seu caráter capitalista, dando-lhe um caráter socialista. Mas, como se pode ver, já nas páginas da Lógica de Hegel está dialeticamente demonstrada essa impossibilidade.