Psicologia de massas do fascismo, de Wilhelm Reich

O estudo do fascismo não tem uma importância meramente histórica para nós. A definição de fascismo dada pelo psicanalista marxista Wilhelm Reich, como "a expressão da estrutura irracional do caráter do homem médio, cujas necessidades biológicas primárias e cujos impulsos têm sido reprimidos há milênios", deixa claro que o fascismo é um fenômeno atual e presente entre nós.

Portanto, o fascismo de ontem, destruído na II Guerra Mundial pelos comunistas da URSS, é o mesmo fascismo de hoje, e tem todas as possibilidades de se reorganizar como outrora sob Hitler. Daí a importância de compreendê-lo, de dominá-lo teoricamente, para então melhor combatê-lo.

É isso o que Reich afirma: "O fascismo só pode ser vencido se for enfrentado de modo objetivo e prático, com um conhecimento bem fundamentado dos problemas da vida." (p. XX)

A abordagem de Reich sobre o fascismo é riquíssima, se configurando como uma genial síntese entre Marx e Freud, entre marxismo e psicanálise. Seu livro "Psicologia de massas do fascismo" foi escrito e publicado no início da década de 1930, enquanto o fascismo era ainda incipiente, e antes também de causar todas aquelas atrocidades que chocariam o mundo anos depois. Isso mostraria, mais tarde, a justeza da análise de Reich.

Nesta obra ele responde a questões fundamentais sobre o fascismo e o seu surgimento, coisas que em sua época não era possível responder com a análise apenas econômica do chamado "marxismo vulgar".

Algumas dessas questões eram: como foi possível o surgimento do fascismo, sendo ele não um pequeno movimento associado a Hitler ou a Mussolini, mas sim um movimento de amplas massas? Como puderam as massas empobrecidas se alinhar com um discurso completamente contrários aos seus próprios interesses de classe? Por que Hitler foi mais eficiente do que o Partido Comunista em alcançar uma vasta audiência antes apolítica?

Essas perguntas eram de importância fundamental, principalmente dentro do Partido Comunista da Alemanha, do qual Reich era o editor da revista de psicologia.


A clivagem

Um ponto fundamental da análise de Reich para responder a essas questões é o que ele chama de "clivagem" da situação econômica com a situação ideológica do trabalhador.

Isso é, seria de se esperar que o trabalhador empobrecido, diante do trabalho de agitação e propaganda do partido comunista, desenvolvesse uma clara consciência de sua situação social, a qual se tranformaria numa determinação revolucionária de se livrar de sua própria miséria social.

Mas o contrário aconteceu na Alemanha de Hitler, e ainda hoje acontece, com frequência. Mas por quê? O que causa essa chamada clivagem entre a situação econômica e a ideológica do trabalhador?

Reich explica essa clivagem apontando para a estrutura de caráter do homem médio, que tem como um dos principais fatores a sexualidade reprimida.

Esta estrutura de caráter, gestada há milênios sob uma sociedade patriarcal, é utilizada de forma eficiente pela ideologia imperialista para servir aos seus propósitos.


A função social da repressão sexual

O marxista Reich compreende perfeitamente que são as condições materiais que determinam a superestrutura ideológica de toda sociedade. Mas é baseando-se em Sigmund Freud que ele vai dizer como isso acontece na mente do indivíduo, e também como a ideologia afeta a estrutura econômica. Munido com as revolucionárias descobertas de Freud sobre o inconsciente e a sexualidade infantil, Reich afirma:

"A inibição moral da sexualidade natural na infância, cuja última etapa é o grave dano da sexualidade genital, torna a criança medrosa, tímida, submissa, obediente, "boa", e "dócil", no sentido autoritário das palavras. Ela tem um efeito de paralisação sobre as forças de rebelião do homem, porque qualquer impulso vital é associado ao medo; e como sexo é um assunto proibido, há uma paralisação geral do pensamento e do espírito crítico. Em resumo, o objetivo da moralidade é a criação do indivíduo submisso que se adapta à ordem autoritária, apesar do sofrimento e da humilhação. Assim, a família é o Estado autoriário em miniatura, ao qual a criança deve aprender a se adaptar, como uma preparação para o ajustamento geral que será exigido dela mais tarde. A estrutura autoritária do homem é basicamente produzida - é necessário ter isso presente - através da fixação das inibições e dos medos sexuais na substância viva dos impulsos sexuais." (p. 28, grifo nosso)

[...]

"O resultado é o conservadorismo, o medo de liberdade; em resumo, a mentalidade reacionária." (p. 29, grifo nosso)

O efeito, então, da ideologia sobre a base econômica e que vai gerar essa clivagem é resumida dessa forma:

"...a inibição sexual altera de tal modo a estrutura do homem economicamente oprimido, que ele passa a agir, sentir e pensar contra os seus próprios interesses materiais." (p. 30)


A estrutura familiar e o fascismo

Wilhelm Reich nos fornece inúmeras citações de panfletos nazistas da época para mostrar a importância dada pelo Partido Nacional-Socialista à estrutura familiar patriarcal, conservadora. Obviamente eles o faziam mais por "instinto" do que por um conhecimento psicológico profundo.

A partir da análise da família, Reich compreende a razão do fascismo ser um fenômeno típico da classe média-baixa: é devido à estrutura familiar autoritária deste estrato social.

Na família do operário, por exemplo, como a mulher precisa trabalhar e ele não sustenta a casa sozinho, o caráter patriarcal é menos influente do que na família da classe média.

A posição dos nazistas em temas como o aborto, por exemplo, deixa claro o que estava em jogo: a repressão sexual. Eles se manifestavam veemente contra o aborto e contra qualquer tipo de regulação da vida sexual.

Os nazistas pregavam o sexo apenas após o casamento, e eram a favor de um estrito controle sobre a sexualidade, combatendo o "bolchevismo cultural".

Reich identifica nisso que o homem médio não conhece a regulação da vida sexual - acha que tem que escolher ou a moral sexual repressiva ou a anarquia sexual, a libertinagem. Uma forma de maniqueísmo sexual.


Religião e misticismo

Os panfletos nazistas reproduzidos por Reich também mostram o quanto eles se apoiavam na religião e no misticismo.

Mas a psicanálise já havia desvendado o efeito psicológico ocorrido nas pessoas sob influência de cultos religiosos. Já havia mostrado a correlação entre as idéias de Deus como pai; de mãe de Deus como mãe e da Trindade como o triângulo familiar (pai, mãe e filho).

Isso é, "os conteúdos psíquicos da religião têm a sua origem nas relações familiares desde a primeira infância."

Reich, se baseando nas descobertas da psicanálise sobre a experiência psíquica da religião, afirma:

"...o homem religioso encontra-se num estado de total desamparo. Em consequência da total repressão da sua energia sexual, perdeu a capacidade para a felicidade e para a agressividade necessária ao combate das dificuldades da vida. Quanto mais desamparado ele se torna, mais é forçado a acreditar em forças sobrenaturais que o apóiam e o protegem. Assim se compreende que, em algumas situações, ele seja capaz de desenvolver um incrível poder de convicção; de fato, uma indiferença passiva com relação à morte. Essa força advém-lhe do amor às suas próprias convicções religiosas, que são sustentadas por excitações físicas altamente prazerosas. Mas ele acredita que essa força provém de 'Deus'. O seu anseio por Deus é, na realidade, o anseio originado pela sua excitação sexual anterior ao prazer e que exige ser satisfeito. A liberação não é, nem pode ser, mais do que a libertação das tensões físicas insuportáveis, que podem ser agradáveis enquanto puderem ser associadas a uma união imaginária com Deus, isto é, à satisfação e ao alívio. A tendência dos religiosos fanáticos para se flagelarem, para atos masoquistas, etc, só vem confirmar o que dissemos. A experiência clínica em economia sexual mostra que o desejo de ser espancado ou a autopunição corresponde ao desejo instintivo de alívio sem incorrer em culpa. Não há tensão física que não evoque fantasias de estar sendo espancado ou torturado, se o indivíduo em questão se sente incapaz de produzir por si próprio o alívio. É essa a origem da ideologia do sofrimento passivo, presente em todas as religiões." (p. 139-140)

[...]

"Em nenhuma classe social florescem as histerias e as perversões, tanto como acontece nos círculos ascéticos da igreja."

O misticismo e a religião reforçam a inibição sexual, a moralidade de submissão e a estrutura familiar patriarcal autoritária. Daí o enorme interesse do fascismo e de toda sorte de reacionarismo político em se utilizar dessas instituições para desarmar o proletariado e manter intacto, sem perturbações, o seu sistema de dominação.


Economia sexual no combate ao fascismo

Reich, como todo marxista, compreende que mais importante do que interpretar o mundo, o que importa é transformá-lo. Por isso sua obra não poderia deixar de apontar alguns caminhos para combater as bases do fascismo.

Vamos nos limitar a citar apenas uma das políticas de economia sexual que ele apresenta, que é resumida da seguinte forma:

"Se conseguimos eliminar o medo infantil da masturbação - o que tem como consequência o aumento da necessidade de satisfação sexual genital -, então o conhecimento intelectual e a satisfação sexual prevalecerão. À medida que desaparece o medo da sexualidade, ou o medo da antiga proibição sexual paterna, diminui também a crença mística." (p. 171)

"A consciência sexual e os sentimentos místicos são incompatíveis."

[...]

"Não nos interessa discutir a existência ou inexistência de Deus: limitamo-nos a suprimir as repressões sexuais e a romper os laços infantis em relação aos pais." (p. 172)

Para comprovar a justeza da linha de seu trabalho, Reich cita os resultados que ele vinha obtendo em seu trabalho de economia sexual com os operários e suas famílias.


Conclusão

Esta obra de Reich, em nosso entendimento, seria melhor se não tivesse sofrido as revisões que sofreu nas edições seguintes à original. À medida que se passam os capítulos, sua obra começa a se mostrar uma colcha de retalhos. Isso foi causado pelo afastamento de Reich do Partido Comunista da Alemanha e seu abandono do marxismo, que ocorreu entre uma edição e outra, num espaço de mais de 10 anos.

As críticas que Reich ensaia sobre a URSS, por exemplo, são em sua maioria descabidas, tendo ele incorrido no grave erro do reducionismo psicológico. E justamente ele, que tanto criticava os "marxistas vulgares" pelo reducionismo econômico.

Nos primeiros capítulos Reich é comunista; no último já abandonou completamente o comunismo e o marxismo, defendendo a teoria da "democracia do trabalho", inventada por ele mesmo. Isso comprometeu a coesão e a coerência de sua obra.

No entanto, permanece intocável o valor de sua análise do fascismo presente nos primeiros capítulos, sendo esta obra altamente recomendável a todos aqueles que pretendem empreender uma análise profunda do fascismo.

Stalin - um novo olhar

É impressionante como a propaganda nazista, criada por Hitler & Cia para justificar sua agressão à União Soviética, não foi morta e enterrada debaixo dos escombros de Berlim após a vitória fulminante dos russos comunistas sobre a grande ameaça ariana. Essa propaganda, infelizmente, teve os EUA como seus continuadores.

É praticamente uma "verdade indiscutível" dizer que Stalin matou milhões de pessoas; que Stalin era um "ditador" sangue-frio; que tinha uma "inteligência medíocre"; que ele causou a fome da Ucrânia; que ele planejou mal a guerra contra Hitler, etc, etc.

Mas em sua extremamente bem documentada obra "Stalin - um novo olhar", Ludo Martens nos mostra um Stalin vivo, forte, determinado, de grande capacidade intelectual, lúcido, coerente e um excelente estrategista militar, o que contrasta completamente com as velhas propagandas nazistas da década de 30 que ainda enganam o mundo. Nos mostra como as "estatísticas" dos "milhões" de mortos sob Stalin foram forjadas antes e durante a guerra fria, mas depois completamente desmascaradas nas aberturas dos arquivos soviéticos na década de 1990, apesar da burguesia não ter interesse em "corrigir" sua literatura anticomunista defasada.

As velhas mentiras hitleristas persistem, mas não sem razão: Stalin é o pior pesadelo que a burguesia já teve. Foi ele quem elevou a URSS a uma condição de potência em apenas algumas décadas de socialismo e venceu a II Guerra Mundial. A burguesia ainda hoje teme Stalin como o diabo teme a cruz.

Russos celebram aniversário de Stalin


Na data em que se comemoram 131 anos do nascimento de Stalin (21/12/2010), centenas de pessoas foram à Praça Vermelha para celebrar o aniversário do grande líder soviético.

Carregando bandeiras vermelhas com a foice e o martelo, os manifestantes denunciaram as tentativas do atual governo russo em difamar o herói soviético, as quais devem se intensificar com a nova campanha de "desestalinização" proposta por Medvedev, a se iniciar em janeiro de 2011.

Mas o líder do Partido Comunista, Gennady Zyuganov, se contrapõe: "Mais uma vez reafirmamos que a era de Stalin foi a mais produtiva, vitoriosa e única na história do nosso estado."

Sobre os últimos líderes russos, Zyuganov afirmou: "A estabilidade dos senhores Putin e Medvedev se baseiam sobre aquilo que Stalin e as autoridades soviéticas construíram. Eles próprios não fizeram nada em 10 anos."

Vladimir Markov, um médico que trabalhou no programa espacial soviético, declarou: "Eu cuspo na cara de qualquer um que me fale sobre 'desestalinização'. E completa: "Stalin foi o nosso átomo e o nosso universo. Stalin foi o nosso caminho às estrelas. Minha geração o tem em suas veias."

Para essa celebração foram encomendados 4 mil cravos, que foram depositados ao lado de um busto de Stalin, próximo ao seu túmulo.

Para este ato foram levantados 80 mil rublos, em uma campanha que tinha como slogan "Dois cravos para o camarada Stalin."



Fontes:
http://www.straitstimes.com/BreakingNews/World/Story/STIStory_616170.html
http://in.reuters.com/article/idINTRE6BK3SW20101221

Economia Marxista - Breve Introdução

O texto abaixo foi redigido apenas para guiar a parte expositiva de um curso de introdução sobre Economia Marxista. Mas apesar de não ter sido escrito para ser lido de forma independente, creio que possa, mesmo assim, ser de alguma utilidade.


Breve histórico da Economia Marxista


Assim como aconteceu em relação à Filosofia clássica alemã e ao socialismo e à historiografia franceses, que foram a base do pensamento marxista, a economia do marxismo também se baseou no que já havia sido desenvolvido até seu tempo.


Marx desenvolveu, corrigiu e aperfeiçoou a economia clássica inglesa.


Por que justamente a economia inglesa, e não a francesa ou a alemã? Porque a Inglaterra era o país capitalista mais desenvolvido.


Marx adotou a tese central da economia política clássica: a de que a troca se baseava numa equivalência (uma comparação) das quantidades de trabalho contidas na mercadoria.


Essa teoria, chamada de valor-trabalho, já havia sido expressa no século XII por Tomás de Aquino e seu mestre, Alberto, o Grande, e foi refinada por William Petty no século XVII. Recebeu sua forma definitiva com Adam Smith no século XVIII e David Ricardo, no século XIX.


Esses economistas conseguiam descrever corretamente alguns fenômenos do capitalismo, mas ficavam estacionados à beira de um conhecimento mais profundo e racional.


Algumas limitações dos economistas burgueses:

  • O valor para eles era simplesmente um instrumento de medida, um numerário que permitia reduzir a um único fator os diferentes elementos do custo das mercadorias. Não disseram qual era a natureza, a essência desse valor.
  • Isso levou Adam Smith a um raciocínio circular: Para ele o valor é determinado pelo trabalho, isso é correto. Mas o valor do trabalho é determinado pelo salário. E agora o impasse: mas o que então determina o valor do salário (ou seja, dos meios de subsistência que o operário compra com seu salário, do arroz, do feijão, etc)?
  • A economia capitalista é vista como sendo estática, visando sempre a “busca do equilíbrio”. As únicas perturbações de equilíbrio consideradas são aquelas oriundas de uma concorrência imperfeita.

Além disso, apesar de ser objetiva e descritiva em relação ao capitalismo, quando se chegava à questão da luta operária e da organização operária, ela voltava a ser normativa, subjetiva e moralizadora.


Condenava as organizações e lutas operárias como “entraves à liberdade”, “obstáculos à concorrência”, “conspirações”, “utopias contrárias a leis econômicas (leis de mercado) inexoráveis”, “atentados contra a ordem pública”, etc.


Principais características do capitalismo


1) Produção de mercadorias


No capitalismo se produz antes de tudo mercadorias. A mercadoria não é um produto qualquer, mas um produto que se destina ao mercado.


Um produto não é uma mercadoria, desde que seja feito para atender à própria necessidade.


O capitalismo tende a transformar tudo em mercadoria (educação, cultura, arte, relacionamentos descartáveis, etc), assim como o Rei Midas transformava tudo em ouro.


Midas era um rei grego que, certa vez, acolheu o pai de Baco, um velho bêbado que havia entrado em seu reino. Midas lhe reconheceu e o levou de volta a Baco, que agradecido, disse a Midas que pudesse fazer qualquer pedido.


Ganancioso, Midas pensou em inúmeras riquezas, jóias, etc. Mas lhe veio a ideia “genial” de que tudo o que ele tocasse se transformasse em ouro. Baco disse que era não era boa ideia, mas Midas insistiu e Baco atendeu. Midas agradeceu e foi dar um abraço em Baco, que se afastou e foi embora apenas acenando de longe.


Ao chegar em casa Midas tentou comer, mas a comida se transformavam em ouro na sua boca. Quando sua esposa chegou contou-lhe orgulhosamente que agora era o rei mais poderoso da terra, e pediu-lhe um abraço. Sem desconfiar de nada, a esposa lhe abraçou e imediatamente se transformou em ouro.


Midas percebeu então a sua miséria.


Depois aparece seu cunhado, que veio lhe pedir dinheiro emprestado, como sempre. Midas tocou em seu ombro, que se tranformou em ouro, e lhe disse: nunca mais vai precisar pedir nada. Então seu cunhado saiu contente e foi se vender.


Midas tentou beber água, que desceu por sua garganta como um líquido quente e espesso, e caiu como chumbo em seu estômago. Ele se ajoelhou, invocou a Baco e pediu que desfizesse seu pedido.


2) Monopolização dos meios de produção pela classe capitalista


Os meios de produção são propriedade de uma classe pouco numerosa. As fábricas, as terras, as máquinas, etc, pertencem à classe dos capitalistas.


De outro lado, uma classe muito numerosa não tem nenhum meio de produção, e é obrigada a vender sua força de trabalho para essa classe que a explora.


3) Trabalho assalariado


Antigamente, no sistema escravista, o homem era vendido por inteiro. Seu corpo, sua carne, seu sangue, enfim, sua própria pessoa era vendida.


Em Roma o escravo era uma simples coisa. Os meios de produção eram divididos em “instrumentos de trabalho mudos” (as coisas, o arado, a carroça, etc), “instrumentos de trabalhos semi-mudos” (os animais de carga, carneiros, vacas, bois, etc) e “instrumentos falantes” (os escravos, os homens).


No capitalismo o que é vendido é a força de trabalho. O operário assalariado, pessoalmente, é livre; o fabricante não pode espancá-lo nem vendê-lo ao vizinho, nem trocá-lo por um cão de caça como acontecia no tempo da servidão.


O operário estaria supostamente em “pé de igualdade”: “Se não quiseres, não trabalhes, ninguém te obriga a trabalhar.”


Mas no capitalismo a escravidão não é tão aparente por não ser “política” ou jurídica, como era na servidão. Não existe um “contrato” ou nenhuma lei que afirme isso. A escravidão é econômica.


Rosa Luxemburgo afirma que nas sociedades anteriores o antagonismo de classes encontrava expressão em relações jurídicas bem determinadas, mas hoje a situação é bem diversa. O proletariado não é obrigado por nenhuma lei a submeter-se ao jugo do capital. Ele é obrigado a tal através da miséria, pela falta de meios de produção.


Eles são acorrentados ao capital pela fome.


4) Anarquia da produção


Cada fabricante produz não para outros produtores, mas para o mercado. Ele simplesmente não sabe quem lhe comprará a mercadoria. Mas mesmo assim, os homens trabalham uns para os outros.


5) Exploração da força de trabalho


Por que os fabricantes contratam os operários? Não é porque desejam sustentar os operários esfomeados, mas sim porque querem tirar lucro deles.


Não se produz para satisfazer necessidades, mas para obter lucros. É o desejo do lucro junto com a anarquia da produção. Muitos capitalistas dedicam sua vida à fabricação de aguardente, por exemplo, que é socialmente prejudicial. Mas por que muitos capitalistas investem nisso? Porque é possível lucrar com a embriaguez do povo.


6) Principais contradições do sistema capitalista


  • Vimos que no capitalismo a produção não é planejada. Cada um produz o que quer, na quantidade que quer. A “mão invisível” do mercado é quem supostamente regularia o deus mercado. Por isso, às vezes produz-se em excesso, gerando crises de superprodução.
    Ao mesmo tempo em que há superprodução, a classe operária, empobrecida, não consegue consumir estes produtos que ela própria gera porque seu salário não é suficiente.
  • O trabalho é social, mas a apropriação deste trabalho é privada. Ou seja, produz-se coletivamente, mas apenas o capitalista, sozinho, se apropria da produção.

    Marx afirma no Manifesto:

    “O capital é um produto coletivo e só pode ser colocado em movimento pela atividade comum de muitos membros da sociedade e mesmo, em última instância, pela atividade comum de todos os membros da sociedade.

    “O capital, portanto, não é uma potência pessoal; é uma potência social. Assim, se o capital é transformado em propriedade comum pertencente a todos os membros da sociedade, não é uma propriedade pessoal que se transforma em propriedade social. Transforma-se apenas o caráter social da propriedade. Ela perde seu caráter de classe.”

Alguns conceitos da Economia Marxista

Valor

  • O que determina o valor é a quantidade de trabalho socialmente necessário para produzir determinada mercadoria.

    Esse “socialmente necessário” significa o tempo de trabalho utilizado em média pelos vários produtores, e que portanto cada mercadoria deveria ser considerada como um exemplar médio de sua espécie.

    Por exemplo: o valor de um par de sapatos seria equivalente ao tempo de trabalho que em média os dez, vinte, cem ou mil fabricantes de sapatos necessitam para produzi-los, e não ao tempo de trabalho necessário para produzir este ou aquele par.

    Seria ilícito portanto argumentar que um par fabricado por um sapateiro preguiçoso, porque demandaria mais tempo para ser produzido, teria maior valor do que o fabricado por um sapateiro diligente.

  • Dois aspectos fundamentais do valor: valor de uso e valor de troca: diferença entre qualidade e quantidade.
  • Uma coisa pode ter valor de uso sem ter valor. É o caso sempre que sua utilidade não é mediada pelo trabalho. Ex: ar, terra virgem, florestas não plantadas, etc.
  • Valor de troca: quantidades definidas de “tempo de trabalho congelado”.
  • A lei do valor foi uma descoberta fundamental de Marx, que superou dificulades que a lei da oferta e da procura não conseguia responder.

    A lei da oferta e da procura, que produz oscilações de preços, só explicam se o equilíbrio entre oferta e procura for atingido ou não, mas não explica como os valores são determinados.

    Exemplo: Se em uma determinada sociedade tanto os pães quanto os aviões tiverem a mesma oferta e a mesma procura, eles terão o mesmo valor? Claro que não, pois mesmo que as pessoas estivessem passando fome e os pães fossem muito necessários, os aviões requerem muito mais trabalho socialmente necessário para sua produção do que os pães.
  • Importantíssimo: a única coisa que gera valor é o trabalho.

Mais-valia

  • É o trabalho excedente do operário. Durante um dia de trabalho o operário produz mais do que ele recebe de volta em forma de salário.
  • O operário trabalha parte do dia para pagar seu salário e a outra parte de graça para sustentar o capitalista.

  • O capitalista tem duas formas de aumentar a mais-valia: a mais-valia absoluta e a mais-valia relativa.

    Mais-valia absoluta: pode ser obtida através da extensão da jornada de trabalho ou do aumento da intensidade do trabalho.

    Mais-valia relativa: pode ser obtida através do aumento da produtividade, de melhorias nas técnicas, no maquinário, etc.


Mercadoria

  • Produto destinado ao mercado, não à satisfação humana. Nem todo produto é uma mercadoria.

  • Um produto não é uma mercadoria, desde que seja feito para atender à própria necessidade.


Força de trabalho

  • O trabalhador não vende o seu trabalho, mas a sua força de trabalho.

  • É uma mercadoria da qual o único reservatório é a carne e o sangue do homem.

  • É a única mercadoria que gera todas as outras – a única que gera valor.

  • É o segredo do lucro do capitalista. A força de trabalho gera valor além daquilo que recebe de volta em forma de salário.


Salário

· Como se determina o salário?

“... o valor da força de trabalho é determinado pelo valor dos artigos de primeira necessidade exigidos para produzir, desenvolver, manter e perpetuar a força de trabalho.” (Marx)

· “É a parte mínima indispensável do produto, tanto quanto o trabalhador precisa para subsistir como trabalhador, não como homem, e para originar a classe aprisionada dos trabalhadores, não a humanidade.” (Marx)

· “Assim como um cavalo, [o trabalhador] deve receber somente o que precisa para ser capaz de trabalhar. A economia política não se ocupa dele no seu tempo livre como homem, mas deixa este aspecto para o direito penal, os médicos, a religião, as tabelas estatísticas, a política e o funcionário de manicômio”. (Marx)

· Os preços do trabalho são mais constantes que os preços dos meios de subsistência.

· Característica interessante do salário:

No sistema de trabalho assalariado, até o trabalho não pago parece trabalho pago. No sistema de escravidão, até o trabalho pago parece ser trabalho não pago.

Parte do trabalho do escravo era necessário para cobrir os custos de sua própria moradia, alimentação, saúde, etc. Mas esse aspecto é obscurecido, e parece que o escravo não recebia nada pelo que fazia.

No capitalismo tem-se a impressão de que todo o trabalho do operário lhe é retornado em forma de salário, mas isso é uma grande ilusão.


Capital

  • Não é “riqueza acumulada”, como vulgarmente se define e às vezes se atribui a Marx. Nem tampouco “qualquer meio para aumentar a produtividade do trabalho”.

    Um chimpanzé usando um pedaço de pau para pegar bananas mais facilmente não foi o primeiro capitalista da história. Também não seria “acumular capital” uma comunidade tribal querendo aumentar sua riqueza através da pecuária ou da irrigação da terra.

  • O capital pressupõe o seguinte:

    Que os bens não são produzidos para consumo direto, mas são vendidos como commodities (mercadorias);

    Que o potencial total de trabalho da sociedade foi fragmentado em trabalhos privados conduzidos independentemente uns dos outros;

    Que as mercadorias são dotadas de valor;

    Que esse valor é realizado através da troca com uma mercadoria especial chamada dinheiro;

  • A lógica interna do capital é sempre aumentar o grande capital, levando à formação de grandes monopólios, e eliminar o pequeno.

  • O capitalista, por ter capital para iniciar um negócio privado, passa pelo seguinte processo:

    D – M – D',

    onde D (dinheiro) é trocado por mercadoria (M) que, por sua vez, gera uma quantidade D' de dinheiro superior à primeira.

  • Já o trabalhador segue o seguinte ciclo:

    M – D – M,

    onde M é a força de trabalho (mercadoria, no capitalismo), que se tranforma em dinheiro utilizado para comprar meios de subsitência (arroz, feijão, moradia, etc).

    Assim, o operário nunca consegue acumular no capital.


O 13º salário nunca existiu

Os Ingleses recebem os ordenados semanalmente!

Mas... há sempre uma razão para as coisas - e os ingleses não fazem nada por acaso!!!

Ora bem, cá está um exemplo aritmético simples que não exige altos conhecimentos de Matemática mas talvez necessite de conhecimentos médios de desmontagem de retórica enganosa.

Uma forma de desmascarar os brilhantes neo-liberais e os seus técnicos (lacaios) que recebem pensões de ouro para nos enganarem com as suas brilhantes teorias...

Fala-se que o governo pode vir a não pagar aos funcionários públicos o 13º salário.

Se o fizerem, é uma roubalheira sobre outra roubalheira.

Perguntarão por quê.

Respondo: Porque o 13º salário não existe.

O 13º salário é uma das mais escandalosas de todas as mentiras do sistema capitalista, e é justamente aquela que os trabalhadores mais acreditam.


Eis aqui uma modesta demonstração aritmética de como foi fácil enganar os trabalhadores.
Suponhamos que você ganha R$ 700,00 por mês. Multiplicando-se esse salário por 12 meses, você recebe um total de R$ 8.400,00 por um ano de doze meses.

R$ 700 X 12 = R$ 8.400,00

Em Dezembro, o generoso patrão cristão manda então pagar-lhe o conhecido 13º salário.
R$ 8.400,00 + 13º salário = R$ 9.100,00

R$ 8.400,00 (Salário anual) + R$ 700,00 (13º salário) = R$ 9.100 (Salário anual mais o 13º salário)

O trabalhador vai para casa todo feliz com o patrão.

Agora veja bem o que acontece quando o trabalhador se predispõe a fazer uma simple contas que aprendeu no Ensino Fundamental:

Se o trabalhador recebe R$ 700,00 mês e o mês tem quatro semanas, significa que ganha por semana R$ 175,00.

R$ 700,00 (Salário mensal) / 4 (semanas do mês) = R$ 175,00 (Salário semanal)

O ano tem 52 semanas. Se multiplicarmos R$ 175,00 (Salário semanal) por 52 (número de semanas anuais) o resultado será R$ 9.100,00.

R$ 175,00 (Salário semanal) X 52 (número de semanas anuais) = R$ 9.100.00

O resultado acima é o mesmo valor do Salário anual mais o 13º salário.

Surpresa, surpresa? Onde está portanto o 13º Salário?

A explicação é simples, embora os nossos conhecidos líderes nunca se tenham dado conta desse fato simples.

A resposta é que o patrão lhe rouba uma parte do salário durante todo o ano, pela simples razão de que há meses com 30 dias, outros com 31 e também meses com quatro ou cinco semanas (ainda assim, apesar de cinco semanas o patrão só paga quatro semanas) o salário é o mesmo tenha o mês 30 ou 31 dias, quatro ou cinco semanas.

No final do ano o generoso patrão presenteia o trabalhador com um 13º salário, cujo dinheiro saiu do próprio bolso do trabalhador.

Se o governo retirar o 13º salário dos trabalhadores da função pública, o roubo é duplo. Daí que, como palavra final para os trabalhadores inteligentes. Não existe nenhum 13º salário. O patrão apenas devolve o que sorrateiramente lhe surrupiou do salário anual.

Conclusão: Os Trabalhadores recebem o que já trabalharam e não um adicional.

Fonte: não consegui localizar o autor.

Paulo Wright, cristão e subversivo

Paulo Stuart Wright nasceu no dia 2 de junho de 1933 em Joaçaba, interior de Santa Catarina, filho de um casal de pastores presbiterianos estadunidenses: Latham Ephraim Wright e Maggie Belle Miller Wrigt. A Igreja Presbiteriana surge na França no Século XVI, tendo como referência as teses de João Calvino. Assim como Lutero, na Alemanha, Calvino se insurge contra a Igreja Católica Romana, vinculada aos interesses feudais, e propõe o retorno ao evangelho de Cristo. Para Calvino, o trabalho justo é a medida que define se o ser humano está entre os escolhidos para a salvação divina.

Aprendendo o Valor do Trabalho

Por isso, na infância, o pai não lhe transmitiu apenas os ensinamentos bíblicos. Ensinou o valor do trabalho. As crianças ajudavam nas tarefas de casa, a cuidar de um pequeno roçado, a preparar o suco de uva; as tarefas eram distribuídas de acordo com a idade e as condições de cada uma, naturalmente.

Concluído o Primário, foi para o Instituto Metodista de Passo Fundo (RS) e terminado o científico, foi para os Estados Unidos, onde cursou sociologia e política. Já viajou noivo de Edimar Rickli, a Edi. Nas férias, arranjava emprego na construção civil e participava das greves da categoria. Escreveu para a noiva: "Minhas mãos já estão calejadas de manejar a pá. O seu noivo agora conhece o que significa trabalho". Falava também com ternura: "Eu a amo numa forma maior do que posso medir ou explicar". Como tinha também cidadania norte-americana, foi convocado para servir às Forças Armadas. Com certeza, teria ido para a Guerra da Coréia (1950-1953). Foge dos EUA.

São Paulo, novembro de 1956. Paulo Wright tira sua carteira profissional e registra como profissão, servente. Não se satisfazia em defender os operários; queria ser um deles. Mas em dezembro de 1956, dona Belle morre e Paulo se vê na obrigação de não deixar o pai sozinho. De volta à pequena Joaçaba, emprega-se como torneiro mecânico numa pequena indústria. Ajudou a fundar o sindicato dos metalúrgicos e apoiou a organização dos trabalhadores da construção civil e da indústria do papel e papelão. Entende que para contribuir com a libertação do povo, é preciso atuar também na política partidária. Ingressa no Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e se candidata a vereador em 1958, mas não é eleito.

Em 1959, o pai decide regressar para os Estados Unidos e Paulo volta com Edi, já casados, para São Paulo. Foi contratado como torneiro mecânico na Lambretta do Brasil S.A, e logo se tornou sócio do sindicato dos metalúrgicos. Continuava atuando na Igreja. Escreve no jornal da Juventude Presbiteriana: "O nosso testemunho no campo missionário e político é estarmos ao lado dos deserdados, sofrendo com os que sofrem, chorando com os que choram, nos alegrando com os que se alegram".

No dia 10/10/59, nasce seu primeiro filho, Charles, que não sobrevive ao parto complicado por falta de assistência médica na Maternidade da Lapa, onde nasciam os filhos dos operários. Em 1960, assume a Secretaria Regional da União Cristã de Estudantes do Brasil. Declara: "...Nossa maneira de amar o próximo deve ir além de ajudar aos mais necessitados. Devemos levar a sério nossa responsabilidade de acabar com a miséria e o analfabetismo".

Nesse ano (1960), o casal volta para Joaçaba (SC), onde Paulo se candidata a prefeito e perde por apenas 11 votos. A direita usou como estratégia de campanha a idéia de que o povo não devia votar em comunista.

Foi chamado para dirigir a Imprensa Oficial do Estado. Mudou-se para Florianópolis, onde, em outubro de 1961, nasceu a filha, Leila Cristina. Dedicou-se a organizar os pescadores numa rede de cooperativas, para se livrarem dos atravessadores. Em 1962, é fundada a Fecopesca, com 27 cooperativas associadas. Foi acusado pela direita, de organizar "Ligas Marítimas Comunistas", numa referência às Ligas Camponesas do Nordeste.

Mandato a Serviço do Povo

Em 1962, sem espaço no PTB, se elege deputado estadual pelo Partido Social Progressista (PSP). Seu mandato foi dedicado à organização dos trabalhadores, ao fortalecimento da Fecopesca, das entidades estudantis e populares. Escreve para um jornal estudantil: "...O foco de nossa atenção se concentra na luta pela construção de uma nova sociedade, para a formação de um novo homem".

Em 1963, nasce seu filho, João Paulo, que veio trazer muita alegria, especialmente para Leila, então com dois anos, uma companhia para brincar. No mesmo ano, nasce a Ação Popular (AP), formada por militantes jovens oriundos da Juventude Universitária Católica (JUC), União Cristã de Estudantes do Brasil e Associação Cristã dos Acadêmicos. A AP definia como objetivos mobilizar, organizar e conscientizar o povo brasileiro contra o capitalismo internacional, nacional e o feudalismo, priorizando as organizações operárias e camponesas.

Paulo se envolveu completamente na construção da AP. As forças organizadas das classes dominantes travam na Assembléia um combate a ele por suas "idéias comunistas". O próprio PSP, partido pelo qual se elegeu, pressiona para que renuncie. Seu primeiro suplente, Manoel Santos (Mané Bicheiro) contrata um pistoleiro para matá-lo. Trata-se de um sargento da Polícia, que procura a vítima para ver se ele concorda em cobrir a oferta. Paulo convence-o a desistir da empreitada e juntos prestam uma queixa na Secretaria de Segurança Pública.

Cass(ç)ado pela Ditadura

Abril de 1964. O Golpe de Estado civil-militar derruba o governo de João Goulart. Vozes raras como Leonel Brizola e Paulo Wright pregam a resistência. A ditadura pressiona por sua cassação. Esta se dá em maio do mesmo ano, sob a fundamentação de "incompatibilidade com o sistema democrático que nos incumbe, como Assembléia da Revolução, defender e preservar".

Acuado, ameaçado, Paulo se refugia na embaixada do México e sai do país. Do México, segue para Cuba, onde não pretende demorar. O tempo foi bem aproveitado. Visitou vários lugares, conversou com o povo, com missionários, com revolucionários, e participou de treinamento militar. Pensava, entretanto, que no Brasil não havia condições de desencandear a guerra de guerrilhas.

Nas palestras em território cubano, destacava que "Ao mesmo tempo, o homem pode ser cristão e socialista e muitos cristãos o são. No mundo de hoje, se vislumbra uma coincidência entre as aspirações dos cristãos e dos socialistas quanto à vida humana".

Luta pelo Socialismo

Em 1965, aos 32 anos de idade, já chamado pelos garotos revolucionários de "tio", Paulo Wright volta ao Brasil com o codinome de "João", certamente para homenagear o filhinho. Integra a direção da AP.

Na clandestinidade, dedica-se de corpo e alma à organização da AP. Em 1967, um grupo de dirigentes foi conhecer a experiência chinesa, enquanto Paulo representou a Organização em Havana, na conferência da OLAS (Organização Latino-americana de Solidariedade). Considerou que a estratégia do foco guerrilheiro não se adequava à nossa realidade. Esta discussão provocou no ano seguinte o primeiro racha na AP. Seu amigo, padre Alípio Freitas, foi um dos que saiu e ajudou a fundar o PRT (Partido Revolucionário dos Trabalhadores).

A maioria dos militantes permaneceu na AP e se aprofundou na linha chinesa, adotando o lema da proletarização. O Revolucionário tinha de ser proletário, sofrer a exploração capitalista, viver no meio do povo como peixe dentro da água. Para Paulo, isso não era novidade. Como dirigente, acompanhou as mudanças, que nem todos suportaram. Mas ele defendia que os que não tivessem condições de se proletarizar, deveriam continuar contribuindo com a organização na medida dos seus limites pessoais.

A AP desenvolveu experiências no meio operário (ABC paulista) e no campo: Vale do Pindaré (MA), Zona do Cacau (BA), Água Branca (AL) e Zona Canavieira de Pernambuco. Em março de 1971, a AP se define como Ação Popular Marxista-leninista (APML), tendo como guia os princípios de Marx, Lênin e Mao-Tsé-Tung.

No final de 1970, Edi não suporta mais a situação instável do casamento e pede o desquite. Diz em carta ao cunhado, Jaime Wright: "Continuo a admirar o trabalho do Paulo, no entanto eu não consigo acompanhá-lo". Em março de 1971, a sentença judicial determina o desquite "por estar provado o abandono voluntário do lar conjugal".

A luta interna se aprofundou, quando a maioria da direção da APML defendeu sua incorporação ao Partido Comunista do Brasil (PC doB). Entre a minoria, estão Jair Ferreira de Sá e Paulo Wright. Eles consideram que essa fusão significa dar um passo atrás na luta pela libertação da classe operária da dominação político-ideológica burguesa. Para eles, o caráter da revolução brasileira é socialista. O fundamento é o esvaziamento progressivo do campo e o crescimento da industrialização, com perspectiva de em 10 anos, 70% da população estar nas cidades. Para conduzir essa revolução, preconizam um partido de novo tipo

Em outubro de 1972, são destituídos dos cargos de direção. A maioria decide a incorporação ao PCdoB. Os remanescentes permanecem como APML, que fica conhecida como AP Socialista.

Paixão e Morte na Semana da Pátria

Setembro de 1973. A Repressão prepara na Semana da Pátria o cerco à AP, independentes ou integracionistas. 38 militantes são capturados no Recife, Rio, São Paulo e em Salvador.

Paulo Wrigt tinha um encontro com Osvaldo Rocha. Pegaram um trem no sentido São Paulo-Mauá. Os agentes também. Eles perceberam. Tentaram despistar. Osvaldo desceu antes. Foi preso ao chegar a casa. Paulo desceu depois; nunca mais foi visto. Na sala de tortura da Operação Bandeirantes (OBAN) do DOI/Codi de São Paulo, Osvaldo viu no chão a camisa com que Paulo estava vestido no seu último encontro.

O Reverendo Jaime Wrihgt, irmão e confidente de Paulo fez de tudo para descobrir seu paradeiro. Foi com um pastor, que também era tenente-coronel à OBAN, mas disseram que lá não havia nenhum preso com o nome do seu irmão. Brilhante Ulstra, torturador denunciado por vários sobreviventes, disse que havia encontrado uma pasta apenas com o título de eleitor de Paulo dentro, mas não o vira e de nada sabia. Jaime foi aos Estados Unidos, pois Paulo tinha dupla cidadania. Denunciou aos organismos internacionais de defesa dos direitos humanos, impetrou habeas corpus, e nada. Procurou Dom Paulo Evaristo Arns, a Comissão de Justiça e Paz. Pediu licença à Igreja Presbiteriana para trabalhar com dom Paulo e foi um dos coordenadores do projeto Brasil: Tortura Nunca Mais.

Paulo recebeu muitas homenagens. A Assembléia Legislativa de Santa Catarina revogou sua cassação em 1985. Um Plenarinho da Assembléia tem o seu nome, que também denomina logradouros públicos no Rio, Curitiba e Florianópolis. A Medalha Chico Mendes de Resistência foi dedicada a ele em 1991. O Estado brasileiro assumiu a responsabilidade por sua morte (Anexo da Lei 9.140/95).

Fonte: O Coronel tem um segredo - Paulo Wright não está em Cuba. Delora Jan Wright, Petrópolis, 1993

José Levino, historiador

Stálin na atual Rússia

À medida que cresce o prestígio de Stálin na atual Rússia, a burguesia intensifica sua sórdida campanha caluniadora.

A Duma apreciou hoje (26/11) um rascunho de pronunciamento para considerar o massacre de Katyn como um "crime stalinista". (Veja a notícia em http://english.ruvr.ru/2010/11/26/35659127.html)

Por outro lado, a atual edição da revista Northstar Compass (nº 10, Nov\2010) informa que um canal de televisão de Moscou conduziu a seguinte pesquisa:

Quem é Stálin para você?

65% - um herói e um gerente muito eficiente
35% - um criminoso

À medida que o tempo passa, os resultados de tais pesquisas na Rússia tem se mostrado cada vez mais pró-Stálin, a despeito da intensa propaganda difamadora do grande líder, interna e externa.

A importância da luta armada na história do Brasil

Durante o período eleitoral foi muito comum o ataque dos candidatos da extrema direita à candidata do PT, Dilma Rousseff, chamando-a de terrorista. Usaram este termo referindo-se ao período em que Dilma participou de movimentos da esquerda armada contra a ditadura militar.

Não foi a primeira vez (e não será a última) que a direita dá o nome de terrorista a alguém que pega em armas para defender seu país. Na verdade, mais do que apenas caluniar através da mídia, a direita tenta transformar movimentos armados em terroristas, corrompendo elementos e manipulando as informações. É o que aconteceu com o Partido Panteras Negras, movimento armado em defesa dos negros nos EUA nos anos 1960, que foi difamado pelo governo, que infiltrou drogas e traficantes nas comunidades negras. Também é o que acontece hoje com as Farc, movimento revolucionário da Colômbia, ao qual a mídia atribui várias ações terroristas de traficantes e do próprio governo. Recentemente, a revista Veja chamou até o grande revolucionário Che Guevara de terrorista.

Mas antes de aceitarmos que os jovens que lutaram contra a ditadura militar - ditadura que censurou a imprensa e a educação, que mais que duplicou nossa dívida externa e nossa dependência dos EUA, que impôs o medo a tantos brasileiros, que impedia a livre expressão e atuação política, que freou os avanços sociais do Governo Jango e acabou com as reformas de base fortalecendo a desigualdade social no Brasil - é importante lembrarmos o papel da luta armada em toda a história do Brasil.


A história do Brasil é a história da resistência do povo brasileiro. Na época da colônia foram as revoltas dos índios contra a exploração portuguesa e até de outros países da Europa que vigoraram. Como a Confederação dos Tamoios (1555-1567), a Guerra dos Aimorés, na Bahia (1555-1673), e a Guerra dos Potiguares, na Paraíba e no Rio Grande do Norte (1586-1599). Depois começaram as resistências às Entradas e Bandeiras, expedições bandeirantes e bugreiras de exploração e captura de indígenas no interior do Brasil, que duraram até o século 17.


Por não conseguirem dominar a maioria dos índios e adequá-los à escravidão, os portugueses trazem mais escravos da África. Quase imediatamente começam a existir os quilombos e, finalmente, acontece a Guerra dos Palmares. Os quilombos foram formados no Brasil até o século 18 e ainda hoje existem diversas comunidades negras e quilombolas no país.


Durante quatro anos, de 1617 a 1621, ocorreu o levante dos tupinambás, numa brava resistência aos portugueses que abrangeu o Estado do Espírito Santo e a Bahia, e, na mesma época, a primeira Insurreição Pernambucana, a Guerra da Luz Divina. Em São Paulo houve a Revolta de Amador Bueno, insurreição popular de 1641. Em 1666, o Motim do Nosso Pai, em Pernambuco, e a Revolução de Beckman, ou revolta de comerciantes no Maranhão, de 1684 a 1685. E continuam as revoltas indígenas com a Confederação dos Cariris, na Paraíba e no Ceará (1686-1692), e com a Guerrilha dos Muras, já no século 18. Teve também a Guerra dos Emboabas entre bandeirantes e mineiros, em São Paulo e Minas Gerais, no início de 1700.


E aí se iniciam as revoltas contra as altas taxas e impostos, como a Revolta do Sal, em Santos (1710), a Guerra dos Mascates entre comerciantes e canavieiros, em Pernambuco (1710-1711), os Motins do Maneta, sublevações ocorridas em Salvador contra o monopólio do sal e aumento de impostos (1711), e a Revolta de Felipe dos Santos, revolta de mineradores contra a política fiscal em Minas Gerais (1720).


Com a ampliação do controle português sobre o território brasileiro, continua a resistência indígena, desta vez no Amazonas, a Guerra dos Manaus (1723-1728), e a Resistência Guaicuru, no Mato Grosso do Sul (1725-1744). E até os jesuítas se unem aos índios catequizados em luta contra Portugal e Espanha na Guerra Guaranítica no Sul (1751-1757).


Até que chegamos às revoltas pela independência do Brasil: a famosa Inconfidência Mineira republicana (1789), a Conjuração Carioca (1794-1795) e a Conjuração Baiana ou Revolução dos Alfaiates (1798), revolta independentista e abolicionista, a única das três que não foi abortada. E, já no século 19, a Conspiração dos Suassunas, em Pernambuco (1801), onde também se deu a Revolução Pernambucana, em 1817, a Revolução Liberal de 1821, na Bahia e no Pará, a Independência da Bahia (1821-1823) e finalmente a guerra da independência do Brasil contra militares legalistas portugueses, que abrangeu Bahia, Piauí, Maranhão e Pará (1822-1823).


Com o Império, novas revoltas: a Confederação do Equador, revolta separatista no Nordeste (1823-1824), a Revolta dos Mercenários, contra o Império do Brasil no Rio de Janeiro (1828), onde também ocorreu a Noite das Garrafadas, insurreição popular e confronto entre brasileiros e portugueses, em abril de 1831, e a famosa Cabanada, insurreição popular na província de Pernambuco.


Aí volta, cada vez mais forte, o desejo pela república, como na Federação do Guanais, na Bahia (1832), e a Rusga, que foi uma revolta entre conservadores (que queriam manter o Império) e republicanos, no Mato Grosso (1834). Houve a também famosa Cabanagem, insurreição popular no Pará (1834-1840), a Revolta dos Malês, na Bahia (1835), a Revolução Farroupilha, no Rio Grande do Sul (1835-1845), a Sabinada, insurreição popular na Bahia (1837-1838), a Balaiada, insurreição popular no Maranhão (1838-1841) e as Revoltas Liberais de São Paulo e Minas Gerais (1842) e a Revolta dos Lisos, em Alagoas (1844).


Em Pernambuco, houve o Motim do Fecha-Fecha (1844), o Motim do Mata-Mata (1847-1848) e a Insurreição Praieira, revolta socialista, de 1848 a 1850. A Revolta do Ronco de Abelha, no Nordeste (1851-1854), o Levante dos Marimbondo, em Pernambuco (1852), a Revolta da Fazenda Ibicaba, em São Paulo (1857), o Motim da Carne sem Osso, insurreição popular na Bahia (1858), a Revolta dos Muckers, insurreição popular-messiânica no Rio Grande do Sul (1868-1874), a Revolta do Quebra-Quilos, insurreição popular no Nordeste (1874-1875), a Guerra das Mulheres - uma insurreição popular no Nordeste (1875-1876) que mostra que as mulheres nunca foram passivas na história - a Revolta do Vintém, insurreição popular no Rio de Janeiro (1880) e Curitiba (1883), e, finalmente, a Proclamação da República, em 1889.


Quando os poderosos no Brasil veem que não vão conseguir parar as revoltas populares, eles vão e fazem algumas concessões ao povo sem perder o poder, mas com isso as revoltas não param, pois o povo quer uma mudança real que beneficie a todos e transforme a sociedade. Durante a República, teve a Revolução Federalista no Rio Grande do Sul (1893-1894), a República de Cunani, insurreição popular-separatista no Amapá (1895-1900), e a famosa Guerra de Canudos, insurreição popular-messiânica na Bahia (1896-1897).


Já no século 20, houve a Revolução Acreana, insurreição popular-separatista no Acre (1900-1903), a Revolta da Vacina, insurreição popular no Rio de Janeiro (1903), a Revolta da Chibata, no Rio de Janeiro (1910), a Guerra do Contestado, insurreição popular-messiânica em Santa Catarina e Paraná (1912-1916), a Sedição de Juazeiro, insurreição política no Ceará (1914), a Revolta dos 18 do Forte no Rio de Janeiro (1922) e, finalmente, a Coluna Prestes, insurreição militar de fama internacional (1923-1925) que aderiu à Revolta Paulista de 1924.


Por conta desses movimentos (o último deles com forte influência socialista), o governo pensou: "Façamos a revolução antes que o povo a faça." E aí veio a Revolução de 1930, golpe de Estado civil-militar, e a Revolução Constitucionalista de 1932, revolta político-militar e guerra civil em São Paulo, e, finalmente, a insurreição comunista no Rio de Janeiro, Pernambuco e Rio Grande do Norte (1935). Até na Segunda Guerra Mundial houve mais de 23 mil soldados brasileiros lutando para derrotar o nazismo.


Em 1964, acontece o Golpe Militar fascista, patrocinado pela burguesia nacional e apoiado pelos EUA, para deter os avanços que o povo vinha conseguindo depois de tanto sangue derramado para cada vitória do povo. E, como nunca faltaram à luta contra as injustiças, filhos do povo brasileiro novamente se armaram na cidade e no campo contra esse novo inimigo do avanço da luta popular, o Governo Ditatorial.


A luta armada e as guerrilhas urbanas e rurais de 1965 a 1972, foram terrivelmente reprimidas pelo regime militar, com requintes de crueldade e desumanidade. Inúmeros filhos do nosso povo foram barbaramente torturados e assassinados. Mas a luta não parou e por isso, hoje, temos nossa "liberdade democrática" que garante, por exemplo, a publicação do jornal A Verdade e a existência do PCR, também como fruto dessa luta armada e de outras lutas que vieram depois.


É claro que ainda há muito por que lutar, e, até hoje, filhos do povo são assassinados pela polícia fascista na luta por moradia e terra no país. Mas a luta não vai parar. A polícia pode nos chamar de terroristas, mas somos o povo brasileiro e lutaremos, se for preciso com armas na mão, até que toda desigualdade e exploração seja banida. Lutaremos até a construção da sociedade socialista.


Luanna Grammont de Cristo, Belo Horizonte

Fonte: http://www.averdade.org.br/modules/news/article.php?storyid=599

Guerrilheira holandesa das FARC nega sequestro

Tanja Nijmeijer, holandesa e talvez a única integrante não latino-americana das FARC's, grava vídeo desmentindo boatos de que estaria "sequestrada" pela guerrilha.

Neste vídeo, usando farda e portanto uma arma, ela diz que já que o governo está espalhando que ela está sequestrada, que então vá tentar resgatá-lá, e ele será recebido com AK, com "ponto 50", com minas e morteiros.


PIG anuncia vitória de Dilma


Emprestado do Cloaca News.

Onde o socialismo deu certo?


A pergunta "onde o socialismo deu certo?" é  geralmente lançada de forma meramente retórica, com o objetivo de referenciar supostas "provas concretas" da inexequibilidade deste modo de produção. Elaborar os problemas de forma correta, porém, já é mais da metade de sua solução. Perguntas (quase) sempre carregam pressupostos que não são assim tão evidentes, e aceitar respondê-las sem analisá-las resulta, várias vezes, em tomar pseudo-problemas como problemas reais.

No caso em questão é preciso esclarecer pelo menos dois pressupostos: em primeiro lugar, o que significa "dar certo"? E em segundo lugar, um sistema econômico ou político tem que "dar certo" para quem?

É evidente que o capitalismo "dá certo" para uma restrita camada da população mundial, enquanto fracassa miseravelmente para aqueles 795 milhões de pessoas que passam fome hoje no planeta. Um sistema com mais de quatro séculos de existência e que não foi capaz até hoje de solucionar problemas básicos como o da fome, do saneamento básico e da moradia deveria ser visto com muito ceticismo.

Vamos dar uma olhada em que medida o socialismo e também o capitalismo "dão certo". Inicialmente faremos algumas considerações sobre o socialismo cubano, depois sobre a União Soviética e o Leste Europeu e, por último, apresentaremos algumas estatísticas sobre o capitalismo no mundo inteiro.

O socialismo em Cuba

Cuba é um país pobre e, como todos os outros países da América Latina, uma ex-colônia. A análise de um país não pode abstrair de sua história. Para agravar esta herança, Cuba ainda sofre um bloqueio econômico por parte dos EUA há mais de 50 anos, o que lhe impede de ter relações comerciais normais não só com as empresas estadunidenses, mas também com empresas de diversos outros países devido à extensão do bloqueio.

Se Cuba tem algum problema econômico, este não começou com o socialismo, mas com a "pobreza" comum a todos os países do continente e anterior à revolução de 1959. Como se isso não bastasse, as dificuldades de Cuba se agravam com o criminoso bloqueio econômico que nenhum outro país da América sofre, e que nenhum outro país suportaria nem por 5 meses, quanto mais por 50 anos.

Quando dizem que o "modelo cubano" não funciona, os capitalistas pretendem comparar a riqueza dos países capitalistas com a pobreza dos cubanos.

Mas por que não comparar a pobreza dos países capitalistas com a pobreza dos países socialistas?

Qualquer comparação entre dois países deve considerar sua história e seu contexto. A colonização dos EUA e do Canadá, por exemplo, foi de um tipo bem diferente da colonização da América do Sul e da África.

Uma comparação honesta de Cuba com outro país deve tomar como parâmetro não os EUA ou a Inglaterra, mas sim países como o Haiti e Trinidad e Tobago, por exemplo.

O que encontramos, então, ao comparar a "pobreza" dos cubanos com a literal miséria do restante da América? Cuba possui o melhor sistema de saúde público e gratuito de todo o continente. Seu sistema educacional gratuito abrange toda a população. Seu índice de analfabetimo é o menor da AL, assim como da desnutrição infantil. Seu índice de desenvolvimento humano (IDH) também é o maior.

Isso seria "dar certo" ou não?

Vemos que isso depende dos parâmetros de avaliação, e também do para quem dá certo.

Confira neste link uma lista mais completa dos indicadores sociais cubanos:

http://omarxistaleninista.blogspot.com.br/2013/04/cuba-indicadores-sociais-e-economicos.html

Vejamos agora o caso da União Soviética, URSS.

O socialismo na URSS

A Rússia virou o século XX como um país semi-feudal, que ainda possuía um tsar. A revolução ocorreu em 1917. O país passou por difíceis períodos de guerra civil, perdeu mais de 25 milhões de pessoas na II Guerra Mundial, foi devastado com a invasão alemã, mas mesmo assim se tornou uma potência mundial, contando apenas com suas próprias forças para isso, ao contrário dos países imperialistas que receberam uma boa fatia do Plano Marshall para se reerguer.

Seu avanço tecnológico chegou a tal ponto que foi o primeiro país a enviar o homem para o espaço (o astronauta Yuri Gagárin), em 1961.

Vejam bem: de semi-feudal em 1917, ano da revolução, a URSS estava enviando o homem para o espaço em 1961.

Num espaço de apenas quatro décadas o país, sob o socialismo, saiu do arado de madeira para o espaço sideral.

Um documentário recente da BBC - insuspeita de quaisquer simpatias pela União Soviética - mostra que a URSS foi a verdadeira vencedora da corrida espacial, e não os EUA.

Neste parâmetro de avaliação, isso seria "dar certo" ou não?

Além de tudo aquilo que conhecemos através dos livros sobre os sistemas de saúde, de educação, de transportes, etc, já tive a oportunidade de conversar diretamente com um soviético (com quem trabalhei por um tempo) sobre como era a vida em seu país.

Ele, um cidadão comum da URSS, me disse que não conhecia pessoalmente nenhum indivíduo que não pudesse fazer faculdade, por exemplo. Me disse que não conhecia ninguém desempregado, e que o grande problema lá é que até faltava mão-de-obra. Lá ninguém era rico, mas também ninguém era "pobre".

É verdade que tanto na URSS como em todo o leste europeu houve um retrocesso ao capitalismo. Mas isso de forma alguma é um sinal de que o socialismo "não deu certo". O próprio capitalismo sofreu inúmeros retrocessos históricos antes de se estabelecer.

O socialismo no Leste Europeu

No caso do leste europeu há importantes fatores que determinaram este retrocesso e que quase nunca são mencionados neste tipo de discussão.

Em primeiro lugar, o leste europeu não se tornou socialista através de revoluções populares bem preparadas com um amplo trabalho de massas, apesar do enorme apoio dos partidos comunistas entre o povo. O socialismo foi implantado nesses países principalmente em virtude das circunstâncias existentes na Europa ao final da II Guerra Mundial.

Antes do término da guerra, esses países estavam sob governos fascistas, implantados por Hitler. Na famosa Conferência de Yalta chegou-se à conclusão de que eles não poderiam ser deixados "sozinhos" após a guerra, sob o risco da ameaça fascista ressurgir naquela região. Fixou-se então que a URSS ficaria encarregada por ela.

No entanto, os partidos comunistas desses países se encontravam desbaratados. Vários dos seus principais quadros e lideranças haviam sido assassinados pelos fascistas. Este foi um dos importantes fatores que não permitiram que o socialismo seguisse um rumo diferente do que poderia em condições normais.

Mas mesmo assim, quando comparamos o nível de desenvolvimento industrial desses países antes e depois da guerra (períodos capitalista e socialista), vemos como o socialismo avançou a indústria dessa "periferia" da Europa.

(A propósito, veja alguns dados comparando a situação do leste europeu nos períodos do socialismo e da volta ao capitalismo: Capitalismo, golpe fatal no Leste Europeu)

Além disso, ao contrário do que alguns costumam afirmar, não se pode considerar todo o leste europeu como "várias experiências" socialistas. Apesar das particularidades de cada país, todos constituem uma única experiência socialista, a experiência de praticamente um único modelo.

Enfim, o que essas e todas as experiências socialistas mostraram e continuam mostrando é que, ao contrário do que dizem, o socialismo é um sistema exequível.

A história não segue linearmente, isso é, como se fosse uma linha reta. O curso histórico talvez seja mais parecido com uma espiral, com seus recuos momentâneos. O próprio capitalismo sofreu diversos golpes e contra-revoluções, levando séculos para se estabelecer completamente. Por que esperar então que o socialismo fosse estabelecido de uma vez por todas com um só golpe?

Como o capitalismo dá certo

Para finalizar, apresento agora alguns dados sobre o capitalismo e inverto a pergunta: o capitalismo "dá certo"? O capitalismo "funciona"? O que seria "dar certo" no capitalismo? Ele "funciona" para quem?


População mundial: 6,8 bilhões, dos quais:

  • 1,02 bilhão têm desnutrição crônica (FAO, 2009)

  • 2 bilhões não têm acesso a medicamentos (www.fic.nih.gov)

  • 884 milhões não têm acesso a água potável (OMS/UNICEF 2008)

  • 924 milhões de "sem teto" ou que vivem em moradias precárias (UN Habitat 2003)

  • 1, 6 bilhão não tem eletricidade (UN Habitat, “Urban Energy”)

  • 2,5 bilhões não tem acesso a saneamento básico e esgotos (OMS/UNICEF 2008)

  • 774 milhões de adultos são analfabetos (www.uis.unesco.org)

  • 18 milhões de mortes por ano devido à pobreza, a maioria delas de crianças com menos de 5 anos (OMS)

  • 218 milhões de crianças, entre 5 e 17 anos, trabalham em condições de escravidão ou em tarefas perigosas ou humilhantes, como soldados, prostitutas, serventes na agricultura, na construção civil ou na indústria têxtil (OIT: A Eliminação do Trabalho Infantil: Um Objetivo a Nosso Alcance, 2006)

  • Entre 1988 e 2002, os 25% mais pobres da população mundial reduziram sua participação na riqueza global de 1,16% para 0,92%, enquanto que os 10% mais ricos acrescentaram mais riquezas, passando de 64,7 para 71,1% da riqueza produzida mundialmente. O enriquecimento de poucos tem como reverso o empobrecimento de muitos.

  • Só esse 6,4 % de aumento da riqueza dos mais ricos seria suficiente para duplicar a renda de 70% da população da Terra, salvando inumeráveis vidas e reduzindo as penúrias e sofrimentos dos mais pobres. Entenda-se bem: tal coisa seria obtida se tão só fosse redistribuído o enriquecimento adicional produzido entre 1988 e 2002, dos 10% dos mais ricos do planeta, deixando intactas suas exorbitantes fortunas. Mas nem sequer algo tão elementar como isso é aceitável para as classes dominantes do capitalismo mundial.