Stalin foi um ditador?

Abaixo traduzo um pequeno trecho de um debate informal ocorrido em um grupo de discussão, entre o professor Grover Furr, dos EUA, e um professor do Reino Unido, cujo nome será mantido em sigilo.

A discussão se deu em torno do título de "ditador" que geralmente é aplicado a Stalin, e que o professor Furr, profundo estudioso do tema, rejeita veemente.

A idéia de publicar este trecho é apenas para mostrar um rascunho, os grandes movimentos ou traços principais de como este tema é abordado pelos dois lados.

Além disso, é importante ressaltar que quando se fala em "ditadura" deve-se sempre perguntar: ditadura de quem sobre quem? Não há dúvidas de que havia uma ditadura na URSS sobre a antiga classe exploradora, assim como no capitalismo os trabalhadores vivem debaixo da ditadura burguesa. A questão que devemos ter em mente, portanto, é se Stalin era um ditador em relação aos trabalhadores, e não às antigas classes exploradoras, que de fato estavam sob a ditadura proletária .

Prof.: "Chamar Stalin de ditador não é tanto uma afirmação sobre Stalin como pessoa, mas sim sobre o Estado sobre o qual ele governava. Havia instituições relevantes que inspecionavam o seu poder? Era possível resistir à sua vontade através de meios políticos legais? Era possível contestar publicamente suas políticas ou defender que ele não deveria manter sua posição? Eu acho que não."

Grover: - Você está enganado. E isso ou porque você não estudou esta questão por si mesmo, ou então não leu alguém que tenha feito isso. Sem dúvida.

De fato, um dos maiores problemas de termos já automatizados nas mentes das pessoas como "ditador" é que eles lhes desencorajam a fazer certas perguntas, pois elas pensam - como você próprio - que essas questões já foram resolvidas e estabelecidas por alguém há muito tempo atrás.

Mas de fato elas não foram resolvidas, de maneira nenhuma.

Em meus artigos eu tenho documentado um grande número de exemplos onde Stalin foi frustrado, não alcançou seus objetivos porque não teve votos suficientes, etc.

Eu tenho encontrado mais exemplos disso do que já publiquei em meus escritos, mas não publico todos simplesmente porque não são relevantes para os temas sobre os quais estou escrevendo.

Mas eu posso te garantir uma coisa: é "politicamente incorreto", inaceitável para a corrente em voga de anticomunistas (e trotskistas) chegar a essa conclusão a despeito de quaisquer evidências.

"Stalin, o ditador" não é um julgamento baseado em evidência. Ao contrário, é uma afirmação de comprometimento ideológico, como a Imaculada Conceição. Evidência é irrelevante.

O historiador russo Iurii Zhukov, um dos membros da Academia Russa, disse em uma conferência alguns anos atrás (eu tenho o transcrito) que ele nunca viu nenhuma evidência de que Stalin era um ditador. Sua afirmação foi simplesmente ignorada.

Isso é um bom exemplo do que estou dizendo. "Stalin, o ditador" é um tipo de senha de respeitabilidade. Se você não repetir estes termos, você não "faz parte do clube" e pode ser deixado no ostracismo.

Prof.: "E é por essa razão que eu não tenho problemas em chamar Stalin de ditador. Não como um insulto, mas apenas como a forma que eu entendo que seu Estado operava, pelo menos a partir da década de 1930. Se Stalin não foi um ditador, então o termo não faz nenhum sentido."

Grover: Você está incorreto. Hitler certamente foi um ditador neste sentido. Stalin não foi.

Prof.: "E da mesma maneira eu não chamaria Khrushchev ou Brezhnev de ditadores, pois seu poder pessoal e autoridade era consideravelmente menor, e a liderança do partido operava muito mais coletivamente e menos formalmente sob seu controle."

Grover:Isso também está incorreto. Khrushchev não agia "coletivamente". Isso era explicitamente uma das maiores razões dadas por aqueles que o tiraram do poder (o transcrito da reunião do Comitê Central na qual ele foi removido de seu gabinete foi publicado em russo).

Prof.:"Quanto a Hitler, há tal unanimidade sobre seu status de ditador que, sim, não há necessidade de reavaliar isso. Mas sempre que há pessoas - como você - que argumentam que Stalin não foi um ditador, então aqueles entre nós que discordam irão reiterar nossa visão."

Grover: Veja acima.

Atencionsamente,
Grover Furr

9 comentários:

  @CorreioPop

5 de agosto de 2011 19:03

Quando Marx falava em ditadura do proletariado, ele não se reveria a ditadura de um partido político, e sim a novas instituições políticas que servissem aos interesses da classe operária, como os sovietes (pelo menos os primeiros tempos dos sovietes, quando ainda havia liberdade).
Não é preciso conhecer profundamente a obra de Marx para se chegar a conclusão de que Marx jamais aprovaria o stalinismo. Marx odiava o personalismo.
É verdade que a democracia burguesa, até a mais "democrática", continua sendo uma ditadura da burguesia sobre os trabalhadores, mas também é verdade que essa ditadura não se baseia nesse ou naquele partido político, ou nesse ou naquele ditador de plantão, e sim em instituições políticas como o parlamento e em instituições da sociedade como a imprensa burguesa.
Uma ditadura no sentido de ditadura de classe jamais pode se basear numa pessoa ou num partido, e sim na classe. Um sistema que perpetua uma mesma pessoa no poder por toda a vida dessa pessoa jamais pode libertar o povo.
Além disso, esse tipo de sistema sempre trará o capitalismo de volta, como ocorreu com a União Soviética.

Ainda que o ditador de plantão seja um homem honesto e preocupado com o povo, esse tipo de sistema abre espaço para o surgimento de pessoas como Gorbachev, que trouxe o capitalismo de volta, mergulhando a Rússia num caos.

Desejando saúde aos editores do site, Carlos Everardo Silva.

  Glauber Ataide

6 de agosto de 2011 11:34

Caro @CorreioPop,

Todo partido é partido de uma determinada classe; logo, não há ditadura do proletariado sem a direção do partido do proletariado.

O problema na URSS não foi o partido estar à frente deste processo, mas sim ter perdido posteriormente sua ligação com as massas - coisa contra a qual Stalin lutou bravamente, sendo, infelizmente, derrotado em diversas ocasiões, como documentado em vários artigos do historiador Grover Furr.

E sobre o personalismo, essa é uma acusação burguesa\trotskysta que não se sustenta diante das evidências.

Tal análise de "indivíduos" é antimarxista, é historiografia burguesa, pois sabemos que o que move a história são as classes, não indivíduos.

Stalin era querido pelo povo soviético porque ele, como líder do partido, representava todas as mudanças que eles percebiam em seu cotidiano.

Você já reparou como a torcida do Flamengo, por exemplo, ostenta bandeiras nos estádios com o rosto de seus ídolos? Como vários atletas são reverenciados por seus clubes, recebendo até estátuas?

Já reparou como pessoas pobres usam camisas do Zico ou do Júnior, sendo que esses jogadores nunca fizeram nada por esses pobres?

Por qual razão, então, as pessoas na URSS não poderiam carregar estandartes e homenagear o líder do seu partido que estava mudando suas vidas para melhor?

Se as pessoas usam camisas de artistas\bandas de que gostam, isso é normal. Mas se for do Stalin, é culto à personalidade.

E mesmo assim, Stalin sabia muito bem o que era um "culto à personalidade", e também combateu isso, como você poder ver no texto abaixo, escrito por ele próprio e publicado neste blog:

http://www.omarxistaleninista.org/2011/02/stalin-combate-o-culto-personalidade.html

Saudações,

  Carlos Everardo Silva

7 de agosto de 2011 01:15

Glauber,

É claro que todo partido é o partido de uma classe. Também é verdade que sem os partidos operários a revolução não sai da primeira página. Mas, quem disse que uma classe tem que ser representado por um único partido? A burguesia, em qualquer democracia burguesa, possui, no mínimo, dois partidos que se revesam no poder.
É claro que você vai dizer que não havia outro partido do povo além do partido comunista. E isso, em parte, é verdade. Mas foi justamente a ideia de partido único que evitou a formação de novos partidos operários (sempre com a tese de que dividir o partido ameaçaria a revolução, embora ninguém tenha se preocupado com a expulsão de vários membros do PC.

Quando um único partido permanece no poder por muito tempo, sem oposição, ele se torna conservador, distante do povo. Você entende o que quero dizer? Não importa se Stálin lutou ou não contra o conservadorismo do partido. Stálin não era imortal, ninguém é. Não se pode colocar todas as esperanças de vitória em um único homem, justamente porque nenhum homem é imortal.

A solução concreta para o que ocorreu na União Soviética seria justamente o fortalecimento dos conselhos operários, formados por operários, por pessoas comuns, e não por governantes profissionais.

É normal que surjam líderes. Existem líderes até em grupinhos de adolescentes. Logicamente, os mais capazes se tornam líderes. O problema é quando esses líderes se tornam dirigentes profissionais.

O grande problema dessa discussão toda é o personalismo ( e eu não me refiro, nesse caso, ao culto à personalidade). Sempre reduzem a discussão aos conflitos entre Stálin e Trotsky. O partido comunista não era formado apenas por esses dois. É preciso uma discussão mais profunda.

De uma forma ou de outra, a história mostrou que todo sistema socialista baseado em um único partido acaba trazendo o capitalismo de volta. E isso ocorre porque as novas gerações dirigente se sentem donas dos meios de produção.

Um sistema de partido único só é seguro nos primeiros tempos, quando os dirigentes ainda são os mesmos que lideraram a revolução. Com o tempo, os dirigentes perdem qualquer ligação com o povo.

O debate é muito longo, não cabe em um comentário. De uma forma ou de outra, a desgraça do comunismo foi o fato da União Soviética não ter podido contar, desde o princípio, com o apoio da Inglaterra, da França e da Alemanha (no caso da Alemanha,a desgraça é maior ainda, porque em nenhum país do capitalismo desenvolvido chegou tão próximo de uma revolução triunfante do que a Alemanha).

O capitalismo acabará caindo, não faz mal.

P/S Não sou trotskista. Trotsky era um grande comunista (você deve discordar), mas, infelizmente, o que sobrou de Trotsky foram apenas meia dúzia de seitas políticas extremamente sectárias.

  Glauber Ataide

8 de agosto de 2011 10:39

Carlos,

Se a burguesia possui inúmeros partidos para ludibriar o povo, por que o proletariado deveria também ter vários partidos? Essa fragmentação só enfraquece o proletariado e abre espaço para o oportunismo e para os agentes do inimigo de classe.

O leninismo defende o partido único do proletariado, e que esse partido, além disso, não se confunda com o governo.

Veja o caso de Cuba. O partido cubano (que é único) nem mesmo participa das eleições.

Para que os cidadãos cubanos ocupem cargos legislativos não é necessário pertencerem ao partido.

Não sei qual a sua opinião a respeito dos últimos acontecimentos em Cuba, mas eu me posiciono entre aqueles que de forma alguma acreditam que suas reformas econômicas sejam definitivamente um retrocesso ao capitalismo.

Lembremos do próprio Lenin, que teve que recorrer à NEP devido a um período muito difícil na URSS. Qualquer outro dirigente que fizesse o mesmo seria rotulado pelos piores adjetivos imagináveis. Mas foi Lenin quem fez.

Cuba também passa por momentos difíceis e sofre um bloqueio econômico criminoso, o que faz necessário recuos momentâneos como estes que, aliás, já foram feitos outras vezes, pelo próprio Fidel.

Além disso, a direção do partido de Cuba vem se renovando, e a participação popular nas eleições, que não são obrigatórias, estão sempre em torno de 95%, mostrando o respaldo do povo cubano ao seu sistema de governo.

No caso da URSS temos uma teia de fatores que resultaram na tomada do partido pelos oportunistas burocratas, e entre eles podemos citar dois: a tradição burocrática russa, que não se elimina num passe de mágica, e as sabotagens e conspirações reais que ameaçavam o governo, que só foram eliminadas a tempo devido à correta política de Stalin e por sua firmeza em defesa do proletariado.

  Carlos Everardo Silva

9 de agosto de 2011 03:20

Glalber,

A minha visão a respeito de Cuba é a seguinte:

As reformas em Cuba são inevitáveis. E isso não é bom. Isso significa que a revolução cubada está sendo derrotada. Mas eu repito, as reformas são inevitáveis. Sem elas, a economia cubana entraria em colapso total.
O bloqueio econômico imposto pelos Estado Unidos já dura décadas, sendo um dos maiores crimes do mundo.

Eu não concordo que o leninismo defenda o partido único. Só havia um partido proletário na Rússia, sendo natural que Lênin defendesse apenas esse partido. Não era uma questão ideológica, e sim uma questão prática. É preciso levar em conta que Lênin desenvolveu suas teorias enquanto tentava conquistar o poder na Rússia, um país atrasado. Já era uma maravilha que em um país tão atrasado existisse um partido operário.
A ditadura de partido único na Rússia não ocorreu porque isso era parte do leninismo, e sim porque todos os outros partidos se uniram aos países imperialistas contra os bolcheviques. É portanto um reflexo do atraso da Rússia,e não parte da teoria leninista. Eu quero ser bem claro, para não agir de forma desonesta, eu não condeno a solução adotada pelos bolcheviques, que proibiram os partidos, e sim que tomem essa atitude, resultado do atraso e isolamento da Rússia revolucionária, como um dogma, como parte do marxismo-leninismo. Se a revolução alemã tivesse triunfado, isso geraria revoluções em outros países desenvolvidos. O isolamento da Rússia seria substituído pela aliança com a Alemanha e outros países. A revolução russa, então, estaria segura. Isso teria permitido, no mínimo, que o partido comunista se dividisse em tendências/frações internas. E isso não seria ruim. Ao contrário, isso seria bom para combater os burocratas. Um dirigente só se torna burocrata justamente por falta de oposição. E assim ele vai concentrando poderes nas mãos.

O sistema de partido único leva necessariamente à burocratização do partido e do Estado. Um burocrata é sempre gerado pela falta de oposição. É a oposição quem fiscaliza o dirigente, impedindo que ele se torne um burocrata.

E, veja bem, quando falo em oposição, não estou falando em uma oposição capitalista. Ora, se eu posso muito bem ser comunista e discordar da forma de governar de outro comunista. Eu posso achá-lo um mal administrador do sistema.

Você diz que o leninismo condena que o partido se confunda com o governo. E isso é verdade. Entretanto, o sistema de partido único gera um terrível risco, é justamente ele que permite que o partido se funda com o Estado. É a classe trabalhadora NÃO PODE CORRER RISCOS. Não é um jogo de azar, para se correr riscos ou fazer apostas.

Eu posso estar totalmente errado, mas continuo achando que Marx jamais aprovaria um sistema assim. Marx jamais aceitaria um partido onde se submeter ao coletivo significasse se submeter ao partido, pois o partido não é o coletivo. Não se pode tratar o ciência marxista-leninista como um dogma religioso. Não se pode tratar um sistema gerado por determinadas circunstâncias, como o de partido único, como se fosse um dogma marxista. Até porque Marx nunca defendeu isso. Jamais. Em lugar algum. Marx nunca rejeitou a importância dos partidos políticos, mas jamais defendeu um sistema de partido único.

Nós não podemos errar, Glauber. Nós não temos o direito de errar. Eu vi no seu site uma foto de Mao Tsé-Tung. Eu admiro ele. O Livro Vermelho é fantástico. É praticamente um manual de batalha. Mas eu não o trato comum um dogma. Eu não posso aplicar, por exemplo, para a Inglaterra ou a França alguns conceitos que não foram nada mais do que um reflexo do atraso da China.

Os princípios revolucionários do marxismo não podem ser castrados, pois isso sim é revisionismo.
O materialismo histórico, a luta de classes que conduz a história necessariamente para a ditadura do proletariado, para a propriedade coletiva dos meios de produção. Mas não se pode confundir certas teorias ou até mesmo atitudes, como no caso da abolição dos outros partidos pelos bolcheviques, como parte da doutrina marxista.

  Glauber Ataide

19 de setembro de 2011 14:05

Caro Carlos,

Discordo que a revolução cubana esteja sendo "derrotada". Qual a evidência disso? Seria o embargo econômico estadunidense, imposto de fora e de maneira unilateral, e que tem sufocado o país por 50 anos? O problema de Cuba é econômico, não político.

"A ditadura de partido único na Rússia não ocorreu porque isso era parte do leninismo, e sim porque todos os outros partidos se uniram aos países imperialistas contra os bolcheviques."

Marx e Engels já ensejam que vários partidos não garantem democracia alguma, pois se os partidos são vários, como na democracia burguesa, as classes por trás deles são apenas duas: burguesia e proletariado.

Portanto, qual o sentido de vários partidos no socialismo, onde se eliminam as classes?

Até mesmo para ocupar cargos públicos no socialismo não é necessário ser do partido, como em Cuba e na URSS. Qual o sentido então de vários partidos?

"O sistema de partido único leva necessariamente à burocratização do partido e do Estado. Um burocrata é sempre gerado pela falta de oposição. É a oposição quem fiscaliza o dirigente, impedindo que ele se torne um burocrata."

Isso não é papel de um outro partido político, mas simplesmente de fiscais, que podem perfeitamente sair das fileiras dos trabalhadores. Não faz nenhum sentido criar um partido político apenas para ser "oposição" e "fiscalizar" quem ocupa cargo público.


"Eu posso estar totalmente errado, mas continuo achando que Marx jamais aprovaria um sistema assim. Marx jamais aceitaria um partido onde se submeter ao coletivo significasse se submeter ao partido, pois o partido não é o coletivo."

Correto que o partido não é o coletivo, mas é a organização mais avançada e consciente deste coletivo. E eu não sei por que você está tão certo que Marx "jamais aprovaria um sistema assim". Compartilhe os textos que ensejam tal interpretação de Marx.


"Marx nunca rejeitou a importância dos partidos políticos, mas jamais defendeu um sistema de partido único."

Há muita coisas neste mundo sobre as quais Marx não escreveu. Dizer que Marx "não disse isso ou aquilo" não constitui argumento.

O marxismo é uma construção de diversos pensadores através da história, não se encerrou com Karl Marx.

  Carlos Everardo Silva

4 de outubro de 2011 03:02

Glauber, voltei:

Você disse:

"Marx e Engels já ensejam que vários partidos não garantem democracia alguma, pois se os partidos são vários, como na democracia burguesa, as classes por trás deles são apenas duas: burguesia e proletariado. Portanto, qual o sentido de vários partidos no socialismo, onde se eliminam as classes?"

O sentido é simples: se um se burocratizar ou desviar-se haverá outro em que a classe trabalhadora poderá se apoiar.

Quando ocorre a burocratização ou quando o partido se torna reformista (e as duas coisas podem ocorrer com qualquer partido operário), então o partido não representa mais o coletivo.

O sistema de partido único é um modelo baseado na sorte, ou qualquer outro termo que defina a instabilidade. Se o partido se manter fiel aos princípios básicos do coletivismo, então ótimo; se não, mais cedo ou mais tarde vem a contra-revolução burocrática-reformista.

Nós precisamos construir um mundo novo, um sistema coletivista seguro. Os trabalhadores não podem ficar dependendo dos rumos de determinado partido.

De todos os partidos socialistas que assumiram o poder, o único que conseguiu permanecer fiel, ou mais ou menos fiel, ao marxismo foi o PC cubano, que até hoje consegue manter um bom nível de sintonia com o povo.

Esse debate é longo, e só mesmo o desenvolvimento da história mostrará se estou errado ou não.

Quando a fiscalização dos governantes, em um sistema de partido único, existe uma forte possibilidade dos fiscais não possuírem liberdade o suficiente para executar suas funções. Não é impossível, mas é mais uma vez uma situação gerada pela instabilidade que o sistema de partido único emana.

Por fim, quero deixar bem claro uma coisa, quando critico a defesa do sistema de partido único, o faço apenas porque não acho aceitável que um sistema gerado por uma situação especial se transforme em ideologia.

  Rodrigo

14 de janeiro de 2012 20:44

Um Partido Comunista, ou vários Partidos Comunistas, no fundo dá no mesmo, pois todos fariam parte do governo, todos representariam o proletariado. Aliás, é por essa razão que não se fala em Partidos Comunistas e sim em Partido Comunista. Então, se há os problemas de burocratização (que foi duramente combatida no PCUS) e de revisionismo, que sejam criados mecanismos reais para evitá-los. Um problema não se resolve criando outro, Carlos.

"O sistema de partido único" gera instabilidade onde, quando? Obviamente haverão ideias contrárias dentro do partido e para resolver essa questão existe o centralismo democrático.

O marxismo não é um dogma, algo que sai do papel e é transposto para a realidade, logo não se pode falar em "mais fiel" ou "menos fiel" ao marxismo. O próprio, que não se resume a Marx e Engels, é um reflexo da realidade. Essa ideia de que o PC cubano é o "mais fiel ao marxismo" é preconceituosa e revisionista.

  Carlos Everardo Silva

19 de janeiro de 2012 02:40

Que o PC cubano foi o único partido socialista que se manteve fiel ao marxismo, pelo menos o único entre os que chegaram ao poder, é um fato. A prova disso é que a maioria dos sistemas socialistas do século 20 não existem mais. Se tivessem se mantido fiel ao marxismo, não teriam se afastado do povo. E é outro fato que esses partidos se afastaram do povo, por sua burocratização

Pois, das duas uma, ou esses sistemas caíram porque o povo os rejeitou ( o que significaria que todos esses partidos construíram sistemas que não iam de encontro ao interesse popular, o que demonstra falta de fidelidade ao marxismo), ou então esses partidos, contra a vontade do povo, trouxeram o capitalismo de volta, o que também materializa falta de fidelidade ao marxismo. Baseado nisso, é que digo: o PC cubano foi o único a se manter fiel, ou mais ou menos fiel ao marxismo. Os cubanos respeitam o PC cubano, reconhecendo o partido como legítimo representante do povo. Mas o PC cubano é um exemplo de sucesso entre vários de fracasso.

Ao defender o sistema de Partido único, você afirma que, em vez de um sistema pluripartidarista, devem ser criados mecanismos reais para evitar a burocratização. Mas que mecanismos? Simplesmente falar em fiscais eleitos pelos trabalhadores é algo muito vazio. Eu já imagino um fiscal sendo acusado de ser contra-revolucionário por denunciar, por exemplo, algum esquema de corrupção chefiado por um ou outro membro do comitê central do PC, ou de algum órgão do governo.

E imagine só tudo isso em meio a uma nova guerra fria? Sim, no futuro, os primeiros países socialistas encontraram novamente a forte oposição dos países capitalistas, das suas elites. Eu já imagino o pobre de um fiscal, ou de um grupo de fiscais, acusados de subversão ou conspiração.

E tudo isso pode acontecer, pois se dizer comunista não é sinônimo de honestidade. Quando os comunistas venceram na Rússia, por exemplo, muita gente que jamais havia estado em qualquer reunião de comunistas, entrou no partido, não por motivos ideológicos, e sim para estar no governo.

Por fim, eu acredito que vários membro do PCUS lutaram contra a burocracia, mas o fato é que, no fim, perderam, já que, no fim da União Soviética, o PCUS já estava totalmente dominado por burocratas. E, na minha opinião, perderam porque o sistema de partido único fortalece a burocracia e enfraquece os revolucionários. Há o PC cubano como exemplo de partido socialista, mas é apenas um partido entre vários que se burocratizam; e talvez isso ainda não tenha ocorrido porque o partido ainda é comandado por pessoas da época da revolução.

De uma forma ou de outra, o maior problema da esquerda hoje não é saber qual sistema partidário é melhor, e sim a reconstrução do movimento socialista internacional.